Floresta Amazonica

Floresta Amazônica




A maior floresta tropical do mundo



A flora amazônica ainda é praticamente desconhecida, com um fantástico potencial de plantas utilizáveis para o paisagismo, e é constituída principalmente de plantas herbáceas de rara beleza, pertencentes às famílias das Araceæ, Heliconiaceæ, Marantaceæ, Rubiaceæ, entre outras. Essa flora herbácea, alem do aspecto ornamental, seja pela forma ou pelo colorido da inflorescência, desempenha vital função no equilíbrio do ecossistema.

Como exemplo, temos as helicônias,com uma grande variedade de espécies com coloridas inflorescências. São de presença marcante nas nossas matas úmidas e tem uma importante função no equilíbrio ecológico. No continente americano, as helicônias são polinizadas exclusivamente pelos beija-flores que, por sua vez são os maiores controladores biológicos do mosquito palha Phletbotomus, transmissor da leishmânia, muito abundante na Amazônia desmatada. A alimentação dos beija-flores chega a ser de até 80% de néctar das helicônias na época da floração das espécies.

Com poucas espécies herbáceas e a grande maioria com espécies de grande porte, as palmeiras tem uma exuberante presença nas matas ribeirinhas, alagadas e nas serras, formando um destaque especial na paisagem amazônica. Muitas palmeiras amazônicas, como tucumã, inajá, buritirana, pupunha, caioué e outras espécies de classificação desconhecida foram muito pouco ou nada utilizadas para o paisagismo.

Quanto às árvores, o vastíssimo mar verde amazônico tem um número incalculável de espécies. Algumas delas, endêmicas em determinadas regiões da floresta foram ou estão sendo indiscriminadamente destruídas, sem que suas propriedades sejam conhecidas. Dentre as árvores mais conhecidas utilizáveis para o paisagismo, estão o visgueiro, os ingás, a sumauma, muitas espécies de figueiras, os taxizeiros, a moela de mutum, a seringueira e o bálsamo.

Crescendo sob as árvores amazônicas, encontram-se plantas epífitas, como: bromélias, orquídeas, imbés e cactos. Essas plantas são importantes para a fauna que vive exclusivamente nos galhos e copas das árvores. Dentre os animais que se integram na comunidade epífita, temos os macacos, os sagüis. as jaguatiricas, os gatos-do-mato, lagartos, araras, papagaios, tucanos e muitos outros que se especializaram nesse habitat, acima do solo. Com o corte das árvores, as epífitas desaparecem e, com elas, toda a fauna associada.

Muitas dessas plantas epífitas de rara beleza foram muito bem retratadas pela pintora Margaret Mee, durante as várias excursões que realizou na floresta amazônica. Outrora abundantes em determinadas regiões, hoje grande parte dessas plantas se encontra em populações reduzidas.

Certamente a região amazônica tem um gigantesco potencial madeireiro, de plantas utilizáveis para o paisagismo e de espécies vegetais com substâncias para uso medicinal. Mas é necessário que tais recursos sejam mantidos de forma renovável. A floresta amazônica ensina que o extrativismo indiscriminado apenas desertifica, pois ela é mantida pela camada de húmus em um solo fresco, muitas vezes arenoso.

Portanto, é imprescindível utilizar a floresta de uma forma racional. Explorando-a, mas renovando-a com as mesmas espécies nativas; e, principalmente, preservando as regiões de santuários de flora e fauna, que muito valerão, tanto no equilíbrio ecológico, quanto no regime de chuvas e na utilização para o turismo. A Amazônica, com seus 6,5 milhões de Km2 é a maior floresta tropical do mundo. Abrangendo nove países, ocupa quase metade da América do Sul. A maior parte da floresta – 3,5 milhões de Km2 – encontra – se em território brasileiro. Essa área, somada à da Mata Atlântica, representa 1/3 do total ocupado por floresta tropicais no planeta. Além da mata, existem na Amazônia áreas de cerrados e outras formações diversas, perfazendo um total de 5,029 milhões de Km2, conhecido como Amazônia legal. Com relação ao relevo, encontrando ali três formações principais. Ao sul localiza –se o planalto Central, ao norte, o planalto das Guianas e, ao centro, a planície sedimentar Amazônica, todos os com altitudes inferiores a 1500m. Na planície Amazônica destacam –se dois tipos de relevo: as várzeas, que por se estenderem ao longo dos rios estão sempre inundados, e as terras firmes, que cobrem a maior parte da planície e constituem o domínio da grande floresta.



Enorme riqueza sobre solo pobres



O solo amazônico apresenta baixos índices de nutrientes, é ligeiramente ácido e bastante arenoso, características que permitem classificá-lo como extremamente pobre. A presença de grande quantidade de matéria orgânica, carregada desde os Andes pelos rios, faz das várzeas as únicas áreas agricultáveis da Amazônia.

Na verdade, como em toda mata tropical, os nutrientes minerais encontram –se quase totalmente na biomassa vegetal ficando uma pequena quantidade no solo, sobretudo na camada superficial de húmus. A rápida reciclagem desses nutrientes, decompostos pelos microorganismo do solo e reabsorvido pelas árvores, garante o equilíbrio necessário a manutenção da floresta. A única função revelante do solo é a de dar suporte físico à vegetação. De acordo com estudos do projeto Radam – Brasil, apenas pouco mais de 10% da Amazônia possuem solo de fertilidade compatível com a atividades agrícolas.



As águas e o clima: um casamento indissolúvel



O sistema hídrico da região Amazônica é o mais imponente do mundo. O rio Amazonas e seus mais de mil afluente forma uma bacia que comporta 1/5 de toda a água doce em forma líquida do planeta. Nascendo na geleira de Yarupa, no Peru, a uma altitude de 5000m, e possuindo 6500km de extensão, com largura de até 100km, o Amazonas é o maio rio do mundo em volume de água, e o segundo maior em extensão. Sua declividade no território brasileiro é de apenas 65m, e a profundidade pode atingir 100m. Outras bacias importantes na região são a do Tocantins-Araguaia e a do Orinoco.

O clima é quente quase o ano inteiro, com uma temperatura média de 25ºC, pouco flutuante ao longo das estações. A região mais úmida do país apresenta uma pluviosidade média de 2000mm ao ano. As chuvas ocorrem no inverno, que dura aproximadamente 150 dias, e caem sob a forma de grandes temporais. O encontro de duas massas de ar, uma vinda do Atlântico norte, e outra, do Atlântico sul, é responsável por essas chuvas, sempre seguidas de céu limpo. Das chuvas que caem na bacia Amazônia, 50% provêm de água evaporada na própria bacia. A chuva resfria o ar acima da copa das árvores e este, ao se com o ar mais quente do interior da mata, provoca a condensação que irá formar novas nuvens. No verão, as nuvens formadas sobre a mata deslocam-se para o sul e são responsáveis pelas chuvas de todo o planalto Central brasileiro.



A incrível diversidade biológica



Calcula-se que dentro da floresta amazônica convivem em harmonia mais de 20% de todas as espécies vivas do planeta, sendo 20 mil de vegetais superiores, 1400 de peixes, 300 de mamíferos e 1300 de pássaros, sem falar das dezenas de milhares de espécies de insetos, outros invertebrados e microorganismos. Para se Ter idéia do que isso significa, existem mais espécies vegetais num hectare de floresta amazônica de que em todo o território europeu. A castanheira é o exemplo mais típico de árvore amazônica, sendo uma das mais imponentes da mata. De toda essa variedade, metade permanece ainda desconhecida da ciência, havendo muitas espécies endêmicas, ou seja, que vivem apenas numa localidade restrita, não ocorrendo em outras regiões.

A vegetação pode ser classificada em: mata de terra firme (sempre seca), mata de várzea (que se alaga na época das chuvas) e mata de igapó (perenemente alagada). Como já dissemos, existem também, em menor quantidade, áreas de cerrado, campos e vegetação litorânea.



O equilíbrio natural da floresta



A Amazônia, como floresta tropical que é, apresenta-se como um ecossistema extremamente complexo e delicado. Sua incrível diversidade biológicas de difícil compreensão. As imensas árvores retiram do solo toda a matéria orgânica nele existente, restando apenas um pouco na fina camada de húmus, onde os decompositores garantem a reciclagem de nutrientes. A retirada desses minerais é tão intensa que alguns rios amazônicos têm suas águas quase destiladas. Ficando praticamente sem matéria orgânica, os peixes e animais aquáticos dependem, para se alimentar, das folhas e dos frutos que caem das árvores. Para que possa ocorrer a reciclagem dos nutrientes, é preciso haver um grande número de espécies de plantas, pois cada uma desempenha uma função no ecossistema. As monoculturas naturalmente comprometem esse mecanismo e, por isso mesmo, não são recomendáveis.

Os animais, que se alimentam das plantas ou de outros animais, também contribuem, com suas fezes, para o retorno da matéria orgânica ao solo. Além disso, eles têm importante participação na polinização das flores e na dispersão dos frutos e das sementes.

As constantes chuvas que caem na Amazônia têm um papel fundamental na manutenção do ecossistema. Muitas vezes as águas nem chegam a atingir o solo, uma vez que ficam retidas nas diversas camadas de vegetação, sendo rapidamente absorvidas ou evaporando-se ao término da chuva. São elas que garantem a exuberância da floresta.

Todos os elementos, clima, solo, fauna e flora, estão tão estreitamente relacionados que não se pode considerar nenhum deles como o principal. Todos contribuem para a manutenção do equilíbrio, e a ausência de qualquer um deles é suficiente para desarranjar o ecossistema.

Retirando-se a vegetação, por exemplo, esta levaria consigo a maior parte dos nutrientes, e o pouco que restasse seria carregado pelas fortes chuvas que passariam a atingir diretamente o solo. Se a existência desse matéria orgânica, a floresta não conseguiria se reconstituir, e a tendência natural seria sua desertificação. Dificilmente, porém, teríamos um deserto total, pois a permanência dos ventos alíseos oriundos do oceano é capaz de garantir a umidade necessária para algumas formas de vegetação. Mas de qualquer maneira o ecossistema estaria destruído. E qual seria a conseqüência disso para o globo?

Durante muito tempo atribuiu-se à Amazônia o papel do “pulmão do mundo”. Hoje sabe-se que a quantidade de oxigênio que a floresta produz durante o dia, pelo processo da fotossíntese, é consumido à noite. No entanto, devido às alterações climáticas que causa no planeta, ela vem sendo chamada de “o condicionador de ar”. O desmatamento da Amazônia pode, aparentemente, causar alterações no clima de todo o planeta, com uma possível elevação da temperatura global pela eliminação da evapotranspiração”. Além disso, o gás carbônico liberado pela queima de suas árvores poderia contribuir para o chamado efeito estufa, novamente aquecendo a atmosfera.



As potencialidade de uso para a humanidade



A importância da Amazônia para a humanidade não reside apenas no papel que desempenha para o equilíbrio ecológico mundial. A região é berço de inúmeras civilizações indígenas e, além disso, constitui-se numa riquíssima fonte de matérias-primas – alimentares, florestais, medicinais, energéticas e minerais.



Fornecimento de alimentos, madeira e produtos medicinais



Se bem utilizadas, as áreas agricultáveis da Amazônia podem fornecer alimentos em abundância. A existência de diversas espécies comercializáveis em estado selvagem, como o cacau, o palmito (açaí) e a castanha – do – Pará, faz da região um rico banco genético para futuros estudos de melhoramento de características, através de cruzamento e seleção de exemplares mais apropriadas à cultura. A floresta possui um grande numero de espécies cujo potencial de utilização já é conhecido, como o babaçu, o cupuaçu e a pupunha, e várias outras que as pesquisas ainda podem identificar como úteis ao homem.

A domesticação dos animais amazônicos – como capivara, o jacaré, a tartaruga, o peixe – boi, o mutum e a paca – traz novas alternativas de produção de alimentos. Também a pesca, se realiza com técnicas adequadas, pode ser uma rica e perene fonte de proteínas.

A presença de diversos invertebrados abre a possibilidade de utilização de algumas espécies para o controle biológicos de pragas da agriculturas. Para isso, bastaria identificar os inimigos naturais ou parasitas capazes de controlar as populações de pragas.

Inúmeras são as espécies de plantas com valor medicinal na floresta amazônica, sendo utilizadas 1300 delas. Menos de 5% das espécies foram pesquisadas para a verificação de possíveis usos medicinais, mas substâncias importantes já foram descobertas, como o curare, um potente anestésico, e o quinino, o mais precioso remédio contra a malária.

Dentre as numerosas espécies fornecedoras de madeira, apenas duas, o mogno e a cerejeira, são aproveitadas em larga escala. Possuindo 30 bilhões de m3 de madeira, a floresta apresenta grande quantidade de espécies utilizáveis, mas ainda pouco exploradas.

Uma árvore que merece destaque é a seringueira, típica da amazônica. Do seu látex fabrica-se a borracha, que, apesar dos atuais similares sintéticos, é insubstituível em diversos produtos. O Brasil já foi o maior produtor, mas hoje importa 70% da borracha que consome.



A produção de energia e as jazidas minerais



Algumas plantas são adequadas à produção de energia, tanto pela combustão direta da madeira, quanto pelo fornecimento de óleos vegetais. O óleo de copaíba, por exemplo, vem sendo apontado pelos pesquisadores como o possível substituto do diesel. Do babaçu, por sua vez, pode-se produzir álcool, carvão siderúrgico, óleo vegetal e biogás. Ambas são espécies bastante comuns na Amazônia.

A abundância de minérios na região é incontestável. Se explorados racionalmente, esses produtos podem trazer grande riqueza ao país. Os mais importantes são: o ferro ( 18 bilhões de toneladas, em Carajás), o alumínio (4 bilhões de toneladas, em Trombetas, Paragominas e Almeirim), o manganês (80 bilhões de toneladas em Carajás e Serra do Navio), o cobre (10 milhões de toneladas, em Carajás), o outro (250 toneladas, em Tapajós), o estanho (400 mil toneladas) e o níquel (90 mil toneladas). Em menor quantidade, encontra-se também na Amazônia o diamante (em Roraima), o petróleo (na plataforma oceânica e no continente), o urânio (em Roraima) e o sal-gema.

Os recursos naturais de Amazônia vêm seno explorados inadequadamente desde a chegada dos primeiros colonizadores. Como efeitos do desmatamento, que altera os hábitats naturais, registra-se um declínio drástico da diversidade biológica. Além disso, a exploração dos recursos naturais tem trazido muito pouca riqueza para a região, que ainda vive do extrativismo. Diversas queimadas, sobretudo em Rondônia, são promovidas exclusivamente para garantir a posse da terra. E toda a devastação está ocorrendo num ritmo muito maior que o das pesquisas científicas, o que dificulta a elaboração de propostas alternativas de utilização dos recursos. Mesmo assim, muita coisa pode ser feita, desde que medidas emergenciais sejam tomadas em curto espaço de tempo.



A ocupação humana na Amazônia: dez mil anos de história



Os portugueses começaram a penetrar na Amazônia no século XVII, quando a região, pelo Tratado de Tordesilhas, ainda pertencia à Espanha. A disputa por sua posse prolongou-se até 1750, quando o Tratado de Madri fixou os limites do Brasil a oeste de Tordesilhas. No fim do século XVIII, o governo do Marquês de Pombal declarou-a província independente e inaugurou a Companhia do Grão-Pará e do Maranhão, para desenvolver a região. Na época da independência, a Amazônia ainda não se integrava ao quadro nacional, mantendo muito mais relações com Portugal do que com o resto do país.

Antes da chegada dos europeus, a Amazônia era habitada por mais de 2 milhões de índios que viviam nas várzeas, as matas e nos campos, sempre às margens dos rios ou à beira-mar, sem depredar a natureza. Alguns grupos já estavam em extinção, como os Tupinambá. Outros foram totalmente dizimados pelos brancos, como os Tapajó, os Kaboquena, os Guanavena e os Manaó ( que deram origem ao nome da capital do Amazonas).

A colonização, que transformava os índios em escravos ou trazia doenças antes desconhecidas desses povos, como a gripe, o sarampo, a tuberculose e as doenças venéreas, foi aos poucos dizimando física ou culturalmente as tribos amazônicas. Esse processo acentuou-se durante o ciclo da borracha e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Nas últimas décadas, a política desenvolvimentista para a Amazônia, com a abertura de estradas como a Belém-Brasília, tem acelerado o extermínio das tribos, cujas terras são reduzidas por projetos de colonização e criação de gado, empreendimentos agrícolas, e pela mineração e extração de madeiras. Enquanto não se demarcam as reservas indígenas, inúmeras rodovias e hidrelétricas vão sendo construídas em territórios ocupados pelos nativos há milhares de anos. Os conflitos entre colonos e indígenas são uma constante na região.


A crescente destruição da Floresta


Até 1980, apenas 2,47% da floresta havia sofrido alteração. Esse índice subiu para 6,5% em 1987 e para 12% em 1988, conforme relatório do Inpe (Instituto de Pesquisas Espaciais) divulgado em maio de 1989. Convém salientar que há uma grande polêmica em torno desses índices, uma vez que são contestados por outras instituições de pesquisa. Para calcular essa área, o INEP utilizou imagens dos satélites NOAA-9 e Landsat – 5, que captam as radiações emitidas por queimadas. Área inclui os cerrados existentes na região.

Um parâmetro fornecido pelo pesquisador Philip M. Fearnside mostra que a devastação cresce em ritmo assustador: é quase um campo de futebol a cada cinco segundos. Essa maior intensidade de remoção da cobertura vegetal está intimamente relacionada á implantação de projetos de colonização e de programas agropecuários, criados pela SUDAM (Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia) e aprovados pelo INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). A maioria desse projetos propicia a concentração de grandes extensões de terra nas mãos de poucos, gerando graves conflitos, como os que se verificam na região do Bico de Papagaio (sul do Pará e norte de Tocantins), onde posseiros e proprietários lutam pelas mesmas terras, sendo freqüentes mortes em ambos os lados.

Com a descoberta das riquezas minerais, iniciou-se na Amazônia mais um tipo de exploração que agride violentamente o ecossistema local. A mineração é feita a céu aberto, removendo – se grandes áreas florestais. Os danos maiores são causados pelos garimpos de ouro, como o do rio Madeira, que poluem as águas com o mercúrio usado para precipitar as minúsculas pepitas dispersas na água. Além disso, grande quantidade de terra é derrubada dos barrancos, mudando a cor e assoreando os cursos d’água. Acredita –se que mais de 250 toneladas de mercúrio foram despejadas apenas no garimpo de Tapajós e outras 78 toneladas no rio Madeira. Esse mercúrio tem contaminado os peixes que servem de alimento para maioria da população, causando inúmeros problemas de saúde, como deficiências renais e neurológicas.



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A DEGRADAÇÃO DO MEIO AMBIENTE

A DEGRADAÇÃO DO MEIO AMBIENTE

POLUIÇÃO


1- O que é poluição


Dá-se o nome de poluição a qualquer degradação (deterioração, estrago) das condições ambientais, do habitat de uma coletividade humana. É uma perda, mesmo que relativa, da qualidade de vida em decorrência de mudanças ambientais. São chamados de poluentes os agentes que provocam a poluição, como um ruído excessivo, um gás nocivo na atmosfera, detritos que sujam os rios ou praias ou ainda um cartaz publicitário que degrada o aspecto visual de uma paisagem. Seria possível relacionar centenas de poluentes e os tipos de poluição que ocasionam, mas vamos citar apenas mais dois exemplos.


Um deles são os agrotóxicos (DDT, inseticidas, pesticidas), muito utilizados para combater certos microorganismos e pragas, em especial na agricultura. Ocorre que o acúmulo desses produtos acaba por contaminar os alimentos com substâncias nocivas à saúde humana, às vezes até cancerígenas. Outro exemplo é o das chuvas ácidas, isto é, precipitações de água atmosférica carregada de ácido sulfúrico e de ácido nítrico. Esses ácidos, que corroem rapidamente a lataria dos automóveis, os metais de pontes e outras construções, além de afetarem as plantas e ocasionarem doenças respiratórias e da pele nas pessoas, são formados pela emissão de dióxido de enxofre e óxidos de nitrogênio por parte de certas indústrias. Esses gases, em contato com a água da atmosfera, desencadeiam reações químicas que originam aqueles ácidos. Muitas vezes essas chuvas ácidas vão ocorrer em locais distantes da região poluidora, inclusive em países vizinhos, devido aos ventos que carregam esses gases de uma área para outra.


O problema da poluição, portanto, diz respeito à qualidade de vida das aglomerações humanas. A degradação do meio ambiente do homem provoca uma deterioração dessa qualidade, pois as condições ambientais são imprescindíveis para a vida, tanto no sentido biológico como no social.


2- A revolução industrial e a poluição.


Foi a partir da revolução industrial que a poluição passou a constituir um problema para a humanidade. É lógico que já existiam exemplos de poluição anteriormente, em alguns casos até famosos (no Império Romano, por exemplo). Mas o grau de poluição aumentou muito com a industrialização e urbanização, e a sua escala deixou de ser local para se tornar planetária. Isso não apenas porque a indústria é a principal responsável pelo lançamento de poluentes no meio ambiente, mas também porque a Revolução Industrial representou a consolidação e a mundialização do capitalismo, sistema sócio-econômico dominante hoje no espaço mundial. E o capitalismo, que tem na indústria a sua atividade econômica de vanguarda, acarreta urbanização, com grandes concentrações humanas em algumas cidades. A própria aglomeração urbana já é por si só uma fonte de poluição, pois implica numerosos problemas ambientais, como o acúmulo de lixo, o enorme volume de esgotos, os congestionamentos de tráfego etc.


Mas o importante realmente é que o capitalismo é um sistema econômico voltado para a produção e acumulação constante de riquezas. E tais riquezas nada mais são do que mercadorias, isto é, bens e serviços produzidos - geralmente em grande escala - para a troca, para o comércio. Praticamente tudo que existe, e tudo o que é produzido, passa a ser mercadoria com o desenvolvimento do capitalismo. Sociedades, indivíduos, natureza, espaço, mares, florestas, subsolo: tudo tem de ser útil economicamente, tudo deve ser utilizado no processo produtivo. O importante nesse processo não é o que é bom ou justo e sim o que trará maiores lucros a curto prazo. Assim derrubam-se matas sem se importar com as conseqüências a longo prazo; acaba-se com as sociedades preconceituosamente rotuladas de “primitivas”, porque elas são vistas como empecilhos para essa forma de “progresso”, entendido como acumulação constante de riquezas, que se concentram sempre nas mãos de alguns.


A partir da Revolução Industrial, com o desenvolvimento do capitalismo, a natureza vai pouco a pouco deixando de existir para dar lugar a um meio ambiente transformado, modificado, produzido pela sociedade moderna. O homem deixa de viver em harmonia com a natureza e passa a dominá-la, dando origem ao que se chama de segunda natureza: a natureza modificada ou produzida pelo homem - como meio urbano, por exemplo, com seus rios canalizados, solos cobertos por asfalto, vegetação nativa completamente devastada, assim como a fauna original da área, etc. - , que é muito diferente da primeira natureza, a paisagem natural sem intervenção humana.


Contudo, esse domínio da tecnologia moderna sobre o meio natural traz conseqüências negativas para a qualidade da vida humana em seu ambiente. O homem, afinal, também é parte da natureza, depende dela para viver, e acaba sendo prejudicado por muitas dessas transformações, que degradam sua qualidade de vida.


3. A POLUIÇÃO DAS ÁGUAS


Desde os tempos mais remotos o homem costuma lançar seus detritos nos cursos de água. Até a Revolução Industrial, porém, esse procedimento não causava problemas, já que os rios, lagos e oceanos têm considerável poder de autolimpeza, de purificação. Com a industrialização, a situação começou a sofrer profundas alterações. O volume de detritos despejados nas águas tornou-se cada vez maior, superando a capacidade de purificação dos rios e oceanos, que é limitada. Além disso, passou a ser despejada na água uma grande quantidade de elementos que não são biodegradáveis, ou seja, não são decompostos pela natureza. Tais elementos - por exemplo, os plásticos, a maioria dos detergentes e os pesticidas - vão se acumulando nos rios, lagos e oceanos, diminuindo a capacidade de retenção de oxigênio das águas e, consequentemente, prejudicando a vida aquática.


A água empregada para resfriar os equipamentos nas usinas termelétricas e atomelétricas e em alguns tipos de indústrias também causa sérios problemas de poluição. Essa água, que é lançada nos rios ainda quente, faz aumentar a temperatura da água do rio e acaba provocando a eliminação de algumas espécies de peixes, a proliferação excessiva de outras e, em alguns casos, a destruição de todas.


Um dos maiores poluentes dos oceanos é o petróleo. Com o intenso tráfego de navios petroleiros, esse tipo de poluição alcança níveis elevadíssimos. Além dos vazamentos causados por acidente, em que milhares de toneladas de óleo são despejados na água, os navios soltam petróleo no mar rotineiramente, por ocasião de lavagem de seus reservatórios. Esses resíduos de petróleo lançados ao mar com a água da lavagem representam cerca de 0,4 a 0,5% da carga total.


A POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA


A poluição atmosférica caracteriza-se basicamente pela presença de gases tóxicos e partículas sólidas no ar. As principais causas desse fenômeno são a eliminação de resíduos por certos tipos de indústrias (siderúrgicas, petroquímicas, de cimento, etc.) e a queima de carvão e petróleo em usinas, automóveis e sistemas de aquecimento doméstico.


O ar poluído penetra nos pulmões, ocasionando o aparecimento de várias doenças, em especial do aparelho respiratório, como a bronquite crônica, a asma e até o câncer pulmonar. Esses efeitos são reforçados ainda pelo consumo de cigarros.


Nos grandes centros urbanos, tornam-se freqüentes os dias em que a poluição do ar atinge níveis críticos, seja pela ausência de ventos, seja pelas inversões térmicas, que são períodos nos quais cessam as correntes ascendentes do ar, importantes para a limpeza dos poluentes acumulados nas camadas próximas à superfície.


A maioria dos países capitalistas desenvolvidos já possui uma rigorosa legislação antipoluição, que obriga certas fábricas a terem equipamentos especiais (filtros, tratamento de resíduos, etc.) ou a usarem processos menos poluidores. Nesses países também é intenso o controle sobre o aquecimento doméstico a carvão, o escapamento dos automóveis, etc. Tais procedimentos alcançam resultados consideráveis, embora não eliminem completamente o problema da poluição do ar. Por exemplo, pesquisas realizadas há alguns anos mostraram que chapas de ferro se corroem muito mais rapidamente em São Paulo do que em Chicago, apesar de esta metrópole norte-americana possuir maior quantidade de indústrias e automóveis em circulação.


Calcula-se que a poluição do ar tenha provocado um crescimento de teor de gás carbônico na atmosfera, que teria sofrido um aumento de 14% entre 1830 e 1930. Hoje em dia esse aumento é de aproximadamente 0,3% ao ano. Os desmatamentos contribuem bastante para isso, pois a queima das florestas produz grande quantidade de gás carbônico. Como o gás carbônico tem a propriedade de absorver calor, pelo chamado “efeito estufa” , um aumento da proporção desse gás na atmosfera pode ocasionar um aquecimento da superfície terrestre. Efeito estufa: ação que certos gases exercem sobre a radiações do calor da terra, interceptando-as e transmitindo-as de volta a superfície.


Baseados nesse fato, alguns cientistas estabeleceram a seguinte hipótese: com a elevação da temperatura média na superfície terrestre, que no início do século XXI será 2ºC mais alta do que hoje, o gelo existente nas zonas polares (calotas polares) irá se derreter. Consequentemente, o nível do mar subirá cerca de 60 m, inundando a maioria das cidades litorâneas de todo o mundo. Alguns pesquisadores pensam inclusive que esse processo já começou a ocorrer a partir do final da década de 80. Os verões da Europa e até da América têm sido a cada ano mais quente e algumas medições constataram um aumento pequeno, de centímetros, do nível médio do mar em algumas áreas litorâneas. Todavia, esse fato não é ainda admitido por grande parte dos estudiosos do assunto.


Outra importante conseqüência da poluição atmosférica é o surgimento e a expansão de um buraco na camada de ozônio, que se localiza na atmosfera - camada atmosférica situada entre 20 e 80 Km de altitude.


O ozônio é um gás que filtra os raios ultravioleta do Sol. Se esses raios chegassem à superfície terrestre com mais intensidade provocariam queimaduras na pele, que poderiam até causar câncer, e destruiriam as folhas das árvores. O gás CFC - clorofluorcarbono -, contido em sprays de desodorantes ou inseticidas, parece ser o grande responsável pela destruição da camada de ozônio. Por sorte, esses danos foram causados na parte da atmosfera situada acima da Antártida. Nos últimos anos esse buraco na camada de ozônio tem se expandido constantemente.


4. OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DOS GRANDES CENTROS


De modo geral, os problemas ecológicos são mais intensos nas grandes cidade que nas pequenas ou no meio rural. Além da poluição atmosférica, as metrópoles apresentam outros problemas graves:


 Acúmulo de lixo e de esgotos. Boa parte dos detritos pode ser recuperada para a produção de gás (biogás) ou adubos, mas isso dificilmente acontece. Normalmente, esgotos e resíduos de indústrias são despejados nos rios. Com freqüência esses rios “morrem” (isto é, ficam sem peixe) e tornam-se imundos e malcheirosos. Em algumas cidades, amontoa-se o lixo em terrenos baldios, o que provoca a multiplicação de ratos e insetos.
 Congestionamentos freqüentes, especialmente nas áreas em que os automóveis particulares são muito mais importantes que os transportes coletivos muitos moradores da periferia das grandes cidades dos países do Sul, em sua maioria de baixa renda, gastam três ou quatro horas por dia só no caminho para o trabalho.
Poluição sonora, provocada pelo excesso de barulho (dos veículos automotivos, fábricas, obras nas ruas, grande movimento de pessoas e propaganda comercial ruidosa). Isso pode ocasionar neuroses na população, além de uma progressiva diminuição da capacidade auditiva.
 Carência de áreas verdes (parques, reservas florestais, áreas de lazer e recreação, etc.). Em decorrência de falta de áreas verdes agrava-se a poluição atmosférica, já que as plantas através da fotossíntese, contribuem para a renovação do oxigênio no ar. Além disso tal carência limita as oportunidades de lazer da população, o que faz com que muitas pessoas acabem passando seu tempo livre na frente da televisão, ou assistindo a jogos praticados por esportistas profissionais (ao invés de eles mesmos praticarem esportes).
 Poluição visual, ocasionada pelo grande número de cartazes publicitários, pelos edifícios que escondem a paisagem natural, etc.


Na realidade, é nos grandes centros urbanos que o espaço construído pelo homem, a segunda natureza, alcança seu grau máximo. Quase tudo aí é artificial; e, quando é algo natural, sempre acaba apresentando variações, modificações provocadas pela ação humana. O próprio clima das metrópoles - o chamado clima urbano - constitui um exemplo disso. Nas grandes aglomerações urbanas normalmente faz mais calor e chove um pouco mais que nas áreas rurais vizinhas; além disso, nessas áreas são também mais comuns as enchentes após algumas chuvas. As elevações nos índices térmicos do ar são fáceis de entender: o asfaltamento das ruas e avenidas, as imensas massas de concreto, a carência de áreas verdes, a presença de grandes quantidades de gás carbônico na atmosfera (que provoca o efeito estufa), o grande consumo de energia devido à queima de gasolina, óleo diesel querosene, carvão, etc., nas fábricas, residências e veículos são responsáveis pelo aumento de temperatura do ar. Já o aumento dos índices de pluviosidade se deve principalmente à grande quantidade de micropartículas (poeira, fuligem) no ar, que desempenham um papel de núcleos higroscópicos que facilitam a condensação do vapor de água da atmosfera. E as enchentes decorrem da dificuldade da água das chuvas de se infiltrar no subsolo, pois há muito asfalto e obras, o que compacta o solo e aumenta sua impermeabilização.


Todos esses fatores que provocam um aumento das médias térmicas nas metrópoles somados aos edifícios que barram ou dificultam a penetração dos ventos e à canalização das águas - fato que diminui o resfriamento provocado pela evaporação - conduzem à formação de uma ilha de calor nos grandes centros urbanos. De fato, uma grande cidade funciona quase como uma “ilha” térmica em relação às suas vizinhanças, onde as temperaturas são normalmente menores. Essa “ilha de calor” atinge o seu pico, o seu grau máximo, no centro da cidade.


A grande concentração de poluentes na atmosfera provoca também uma diminuição da irradiação solar que chega até a superfície. Esse fato, juntamente com a fraca intensidade dos ventos em certos períodos, dá origem às inversões térmicas.


O fenômeno da inversão térmica - comum, por exemplo, em São Paulo, sobretudo no inverno - consiste no seguinte: o ar situado próximo à superfície, que em condições normais é mais quente que o ar situado bem acima da superfície, torna-se mais frio que o das camadas atmosféricas elevadas. Como o ar frio é mais pesado que o ar quente, ele impede que o ar quente, localizado acima dele, desça. Assim, não se formam correntes de ar ascendentes na atmosfera. Os resíduos poluidores vão então se concentrando próximo da superfície, agravando os efeitos da poluição, tal como irritação nos olhos, nariz e garganta dos moradores desse local. As inversões térmicas são também provocadas pela penetração de uma frente fria, que sempre vem por baixo da frente quente. A frente pode ficar algum tempo estagnada no local, num equilíbrio momentâneo que pode durar horas ou até dias.


ÁGUA: UMA ESCASSEZ ANUNCIADA


O volume de água na Terra está estimado em 1 trilhão e 386 bilhões de quilômetros cúbicos (Km3), sendo a maior parte - 97,2% desse total - formada pela água salgada dos mares e oceanos. Algo como 1,8% da água total está estocada sob a forma de neve ou gelo, no topo das grandes cadeias de montanhas ou nas zonas polares. Outra porção é a água subterrânea, que abrange cerca de 0,9% desse total, restando então a água atmosférica (0,001%) e os rios e lagos de água doce, que ficam com somente 0,0092% dessa água do nosso planeta.


A cada ano, a energia do Sol faz com que um volume de aproximadamente 500.000 Km3 de água se evapore, especialmente dos oceanos, embora também de águas e rios. Essa água retorna para os continentes e ilhas, ou para os oceanos, sob a forma de precipitações: chuva ou neve. Os continentes e ilhas têm um saldo positivo nesse processo. Estima-se que eles “retirem” dos oceanos perto de 40.000 Km3 por ano. É esse saldo que alimenta as nascentes dos rios, recarrega os depósitos subterrâneos, e depois retorna aos oceanos pelo deságüe dos rios.


No entanto, o ritmo acelerado de desmatamentos das últimas décadas, e o crescimento urbano e industrial, que necessita sempre de mais água, vem alterando esse ciclo hidrológico. Estudos da ONU mostraram que o desmatamento e o pastoreio excessivo diminuem a capacidade do solo em atuar como uma grande esponja, absorvendo águas das chuvas e liberando seus conteúdos lentamente. Na ausência de coberturas vegetais, e com solos compactados, a tendência das chuvas é escorrer pela superfície e escoar rapidamente pelos cursos de água, o que traz como conseqüência as inundações, aceleração no processo de erosão e diminuição das estabilidade dos cursos de água, que ficam diminuídos fora do período de cheias, comprometendo assim a agricultura e a pesca. Não faltam sinal de escassez de água doce. O nível dos lençóis freáticos baixa constantemente, muitos lagos encolhem e pântanos secam. Na agricultura, na indústria e na vida doméstica, as necessidades de água não param de aumentar, paralelamente ao crescimento demográfico e ao aumento nos padrões de vida, que multiplicam o uso da água. Nos anos 50, por exemplo, a demanda de água por pessoa era de 400 m3 por ano, em média no planeta, ao passo que hoje essa demanda já é de 800 m3 por indivíduo. Em países cada vez mais populosos, ou com carência em recursos hídricos, já se atingiu o limite de utilização de água. Constatou-se que atualmente 26 países, a maioria situada no continente africano, totalizando 235 milhões de pessoas, sofrem de escassez de água. As outras regiões do mundo também não são poupadas. Sintomas de crises já se manifestam em países que dispõem de boas reservas. Nos locais onde o nível de bombeamento (extração) das águas subterrâneas é mais intenso que sua renovação natural, se constata um rebaixamento do nível de lençóis freáticos, que, por esse motivo, exigem maiores investimentos para serem explorados e ao mesmo tempo vão se tornando mais salinos.


CRISE AMBIENTAL E CONSCIÊNCIA ECOLÓGICA




Desde a década de 70 a humanidade vem tomando consciência de que existe uma crise ambiental planetária. Não se trata apenas de poluição de áreas isoladas, mas de uma real ameaça à sobrevivência dos seres humanos, talvez até de toda a biosfera. O notável acúmulo de armamentos nucleares nas décadas de 50, 60 e 70 ocasionou um sério risco de extermínio, algo que nunca tinha sido possível anteriormente. A multiplicação de usinas nucleares levanta o problema do escape de radiatividade para o meio ambiente e coloca a questão do que fazer com o perigoso lixo atômico. O acúmulo de gás carbônico também na atmosfera representa um risco de catástrofe, pois ocasiona o crescimento do efeito estufa, que eleva as médias térmicas da maior parte dos climas do planeta.
Muitos outros problemas ambientais podem ser lembrados. Um deles é a contaminação de alimentos por produtos químicos nocivos à saúde humana, como agrotóxicos, adubos químicos, hormônios e medicamentos aplicados comumente ao gado para que ele cresça mais rapidamente ou não contraia doenças. Podemos acrescentar ainda a crescente poluição dos oceanos e mares, o avanço da desertificação, o desmatamento acelerado das últimas grandes reservas florestais originais do planeta (Amazônia, bacia do rio Congo e Taiga), a extinção irreversível de milhares ou até milhões de espécies vegetais e animais, etc.
Podemos falar numa consciência ecológica da humanidade em geral, embora com diferente ritmos - mais avançada no Norte e mais tardia nos países subdesenvolvidos - , que se iniciou por volta da década de 70 e cresce a cada ano. Trata-se da consciência de estarmos todos numa mesma “nave espacial”, o planeta Terra, o único que conhecemos que possibilitou a existência de uma biosfera. Trata-se ainda da consciência de que é imperativo para a própria sobrevivência da humanidade modificar o nosso relacionamento com a natureza. A natureza deixa aos poucos de ser vista como mero recurso inerte e passa a ser encarada como um conjunto vivo do qual fazemos parte e com o qual temos que procurar viver em harmonia.


UM PROBLEMA MUNDIAL


Um fato que ficou claro desde os anos 70 é que o problema ambiental, embora possa apresentar diferenças nacionais e regionais, é antes de mais nada planetário, global. A longo prazo, de nada adianta, por exemplo, transferir indústrias poluidoras de uma área (ou país) para outra, pois do ponto de vista da biosfera nada se altera. Não podemos esquecer que a atmosfera é uma só, que as águas se interligam (o ciclo hidrológico), que os ventos e os climas são planetários.
Vamos imaginar que estamos numa enorme casa, com todas a janelas e portas fechadas, e há uma fogueira num quarto nobre envenenando o ar. Alguém propõe então transferir a fogueira para outro quarto, considerado menos nobre. Isso elimina o problema de ar contaminado? Claro que não. No máximo pode dar a impressão de que por algum tempo melhorou a situação dos que ocupam o quarto nobre. Todavia, depois de um certo período (horas ou dias), fica evidente que o ar da casa é um só e que a poluição num compartimento propaga-se para todo o conjunto. A biosfera, onde se inclui o ar que respiramos, as águas e todos os ecossistemas, é uma só apesar de muito maior que essa casa hipotética. O ar, embora exista em grande quantidade, na realidade é limitado e interligado em todas as áreas. Poderíamos abrir portas e janelas daquela casa, mas isso não é possível para a biosfera, para o ar ou as águas do nosso planeta.
Outro aspecto do caráter mundial que a crise ambiental possui é que praticamente tudo o que ocorre nos demais países acaba nos afetando. Até algumas décadas atrás era comum a opinião de que ninguém tem nada a ver com os outros, cada país pode fazer o que bem entender com o seu território e com as suas paisagens naturais. Hoje isso começa a mudar. Vai ficando claro que explosões atômicas russas ou norte-americanas, mesmo realizadas no subsolo ou em áreas desérticas desses países, acabam mais cedo ou mais tarde nos contaminando pela propagação da radiação. Também a poluição dos mares e oceanos (e até dos rios, que afinal desembocam no mar), mesmo realizada na litoral de algum país, acaba se propagando, atingindo com o tempo outros países. As enormes queimadas de florestas na África ou na América do Sul não dizem respeito unicamente aos países que as praticam; elas fazem diminuir a massa vegetal sobre o planeta ( e as plantas, pela fotossíntese, contribuem para a renovação do oxigênio do ar) e, o que é mais importante, liberam enormes quantidades de gás carbônico na atmosfera, fato que acaba por atingir a todos os seres humanos. Inúmeros outros exemplos poderiam ser mencionados. Todos eles levam à conclusão de que a questão do meio ambiente é mundial e é necessário criar formas de proteção da natureza que sejam planetárias, que não fiquem dependentes somente de interesses locais - e as vezes mesquinhos - dos governos nacionais.




POLÍTICA E MEIO AMBIENTE




A crise ambiental vem suscitando mudanças na política. Não apenas as preocupações ecológicas cresceram enormemente nos debates e nos programas de políticos e de partidos, como também novas propostas surgiram. Até mais ou menos a década de 60 era o raro partido político, em qualquer parte do mundo, que tivesse alguma preocupação com a natureza. Hoje esse tema ganha um certo destaque nos programas, nas promessas eleitorais, nos discursos e algumas vezes até na ação dos diversos partidos, em muitas partes do mundo. Multiplicaram-se os ecologistas, as organizações e os movimentos ecológicos, assim como os partidos denominados verdes que defendem uma política voltada basicamente para uma nova relação entre a sociedade e a natureza.
Como infelizmente é comum em nossa época mercantilizada, também no movimento “verde” há muito oportunismo: às vezes a defesa do meio ambiente resulta em promoção pessoal e mesmo em altos ganhos. Ë o caso das empresas que visam apenas ao lucro com a venda de produtos ditos naturais. Podemos lembrar ainda os constantes shows musicais cuja renda se destinaria aos indígenas ou aos seringueiros da Amazônia - que em geral até hoje nunca viram um centavo desses milhões de dólares. Apesar de tudo isso, não se pode ignorar a renovação que a problemática ambiental ocasionou nas idéias políticas.
Até alguns anos atrás falava-se em progresso ou desenvolvimento e aparentemente todo mundo entendia e concordava. O que provocava maiores polêmicas eram os meios para chegar a isso: para alguns o caminho era o capitalismo, para outros o socialismo; certas pessoas diziam que um governo democrático era melhor para se alcançar o progresso, outras afirmavam que só um regime forte e autoritário poderia colocar ordem na sociedade e promover o desenvolvimento. Mas o objetivo era basicamente o mesmo: o crescimento acelerado da economia, a construção de um número cada vez maior de estradas, hospitais, edifícios, aeroportos e escolas, a fabricação de mais e mais automóveis, a extensão sem fim dos campos de cultivo. A natureza não estava em questão. O único problema de fato era a quem esse desenvolvimento beneficiária: à maioria ou a minoria da população.
Usando uma imagem, podemos dizer que o progresso era um trem no qual toda a humanidade viajava, embora alguns estivessem na frente e outros atrás, alguns comodamente sentados e outros de pé. Para os chamados conservadores (isto é, a “direita”), isso era natural e inevitável: sempre existiriam os privilegiados e os desfavorecidos. Para os denominados progressistas ( ou seja, a “esquerda”), essa situação era intolerável e tornava necessário fazer uma reformulação para igualar a todos. Mas todas as pessoas concordavam com a idéia de que o trem deveria continuar no seu caminho, no rumo do “progresso”; havia até discussões sobre a melhor forma de fazer esse trem andar mais rapidamente.
A grande novidade da crise ambiental é que ela suscitou a seguinte pergunta: Para onde o trem está indo? E a resposta parece ser: Para um abismo, para um catástrofe. De fato, ao enaltecer o progresso durante séculos, imaginava-se que a natureza fosse infinita: poderíamos continuar usando petróleo, ferro, manganês, carvão, água, urânio, etc. à vontade, sem problemas. Sempre haveria um novo espaço a ser ocupado, um novo recurso a ser descoberto e explorado. A natureza, vista como um mero recurso para a economia, era identificada com o universo, tido como infinito.
Mas hoje sabemos que a natureza que permite a existência da vida e fornece os bens que utilizamos - a natureza para os homens, afinal - ocorre somente no planeta Terra, na superfície terrestre. E ela não é infinita; ao contrário, possui limites que, apesar de amplos, já começam a ser atingidos pela ação humana. Não há espaço, atmosfera, água, ferro, petróleo, cobre, etc. para um progresso ilimitado ou infinito. É necessário portanto repensar o modo de vida, o consumo, a produção voltada unicamente para o lucro e sem nenhuma preocupação com o futuro da biosfera. Essa é a grande mensagem que o movimento ecológico trouxe para a vida política.




A QUESTÃO AMBIENTAL DA NOVA ORDEM MUNDIAL


Durante a ordem mundial bipolar a questão ambiental era considerada secundária. Somente os movimentos ecológicos e alguns cientistas alertavam a humanidade sobre os riscos de catástrofes ambientais. Mas a grande preocupação dos governos - e em especial da grandes potências mundiais - era com a guerra fria, com a oposição entre o capitalismo e o socialismo. O único grande risco que parecia existir era o da Terceira Guerra Mundial, uma guerra atômica entre as superpotências de então. Mas o final da bipolaridade e da guerra fria veio alterar esse quadro. Nos anos 90 a questão do meio ambiente torna-se essencial nas discussões internacionais, nas preocupações dos Estados - e principalmente dos grandes centros mundiais de poder - quanto ao futuro.
Já antes do final dos anos 80 percebia-se que os problemas ecológicos começavam a preocupar as autoridades soviéticas, norte-americanas e outras, mas sem ganharem muito destaque, Houve em 1972, na Suécia, a Primeira Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, promovida pela ONU e com a participação de dezenas de Estados. Naquele momento, a questão ambiental começava a se tornar um problema oficial e internacional. Mas foi a Segunda Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente, a ECO-92 ou RIO-92, realizada no Brasil vinte anos depois da primeira, que contou com maior número de participantes (quase cem Estados-nações) e os governos enviaram não mais técnicos sem poder de decisão, como anteriormente, e sim políticos e cientistas de alta expressão em seus países. Isso porque essa segunda conferência foi realizada depois do final da guerra fria e o desaparecimento da “ameaça comunista” veio colocar a questão ambiental como um dos mais importantes riscos à estabilidade mundial na nova ordem. Além disso, os governos perceberam que as ameaças de catástrofes ecológicas são sérias e precisam ser enfrentadas, e que preservar um meio ambiente sadio é condição indispensável para garantir um futuro tranqüilo para as novas gerações.
Mas a problemática ambiental suscita várias controvérsias e oposições. Os países ricos voltam suas atenções para queimadas e os desmatamentos nas florestas tropicais, particularmente na floresta Amazônica, a maior de todas. Já os países pobres, e em particular os que têm grandes reservas florestais, acham natural gastar seus recursos com o objetivo de se desenvolverem. “Se os países desenvolvidos depredaram suas matas no século passado, por que nós não podemos fazer o mesmo agora?”, argumentam. Alguns chegam até afirmar que essa preocupação com a destruição das florestas tropicais ou com outras formas de poluição nos países subdesenvolvidos ( dos rios, dos grandes centros urbanos, perda de solos agrícolas por uso inadequado, avanço da desertificação, etc.) nada mais seria que uma tentativa do Norte de impedir o desenvolvimento do Sul; a poluição e a destruição das florestas, nessa interpretação, seriam fatos absolutamente naturais e até necessários para se combater a pobreza. Outros ainda - inclusive países ricos, como o Japão, a Suécia ou a Noruega - argumentam que é uma incoerência os Estados Unidos pretenderem liderar a cruzada mundial contra a poluição quando são justamente eles, os norte-americanos, que mais utilizam os recursos naturais do planeta.
Todos esses pontos de vista têm uma certeza razão, e todos eles são igualmente limitados ou parciais. Os atuais países desenvolvidos, de fato, em sua maioria depredaram suas paisagens naturais no século passado ou na primeira metade deste, e isso foi essencial para o tipo de desenvolvimento que adotaram: o da Primeira ou da Segunda Revolução Industrial, das indústrias automobilísticas e petroquímicas. Parece lógico então acusar de farsante um país rico preocupado com a poluição atual nos países subdesenvolvidos. Mas existe um complicador aí: é que até há pouco tempo, até por volta dos anos 70, a humanidade não sabia que a biosfera podia ser irremediavelmente afetada pelas ações humanas e existiam muito mais florestas ou paisagens nativas no século passado do que hoje.
Nas últimas décadas parece que o mundo ficou menor e a população mundial cresceu de forma vertiginosa, advindo daí um maior desgaste nos recursos naturais e, ao mesmo tempo, uma consciência de que a natureza não é infinita ou ilimitada. Assim, o grande problema que se coloca nos dias atuais é o de se pensar num novo tipo de desenvolvimento, diferente daquela que ocorreu até os anos 80, que foi baseado numa intensa utilização - e até desperdício - de recursos naturais não renováveis. E esse problema não é meramente nacional ou local e sim mundial ou planetário. A humanidade vai percebendo que é uma só e que mais cedo ou mais tarde terá que estabelecer regras civilizadas de convivência - pois o que prevaleceu até agora foi a “lei da selva” ou a do mais forte - , inclusive com uma espécie de “Constituição” ou carta de gestão do planeta , o nosso espaço de vivência em comum. É apenas uma questão de tempo para se chegar a isso, o que provavelmente ocorrerá no século XXI.


A BIODIVERSIDADE


Um elemento que ganha crescente destaque dentro da questão ambiental é a biodiversidade, ou diversidade biológica ( de espécies animais e vegetais, de fungos e microrganismos). Preservar a biodiversidade é condição básica para manter um meio ambiente sadio no planeta: todos os seres vivos são interdependentes, participam de cadeias alimentares ou reprodutivas, e sabidamente os ecossistemas mais complexos, com maior diversidade de espécies, são aqueles mais duráveis e com maior capacidade de adaptação às mudanças ambientais. Além disso, a biodiversidade é fundamental para a biotecnologia que, como já vimos, é uma das indústrias mais promissoras na Terceira Revolução Industrial que se desenvolve atualmente.
A humanidade já catalogou e definiu quase 1,5 bilhão de organismos, mas isso é muito pouco: calcula-se que o número total deles na Terra chegue a no mínimo 10 bilhões e talvez até a 100 bilhões! E a cada ano milhares de espécies são exterminadas para sempre, numa proporção que pode atingir 30% das espécies totais dentro de três décadas, se o atual ritmo de queimada e desmatamentos nas florestas tropicais ( as mais ricas em biodiversidade), de poluição nas águas, etc. continuar acelerado. Isso é catastrófico, pois essas espécies foram o resultado de milhões de anos de evolução no planeta, e com essa perda a biosfera vai ficando mais empobrecida em diversidade biológica, o que e perigoso para o sistema de vida como um todo.
Não podemos esquecer a importância econômica e até medicinal de cada espécie. Por exemplo: as flores que cultivamos em jardins e os frutos e hortaliças que comemos são todos derivados de espécies selvagens. O processo de criar novas variedades, com cruzamentos ou com manipulação genética, produz plantas híbridas mais frágeis que as nativas, mais suscetíveis a doenças ou ao ataque de predadores, que necessitam portanto de mais proteção para sobreviverem e, de tempos em tempos, precisam de um novo material genético para serem corrigidas e continuarem produzindo colheitas. Por isso, precisamos ter a maior diversidade possível, principalmente das plantas selvagens ou nativas, pois são elas que irão fornecer esse novo material genético.
Os organismos constituem a fonte original dos princípios ativos* dos remédios, mesmo que estes posteriormente sejam produzidos artificialmente em laboratórios. Os antibióticos, por exemplo, foram descobertos a partir do bolor ( fungos que vivem em matéria orgânica por eles decomposta); e a aspirina veio originalmente do chá de uma casca de árvore da Inglaterra. É por isso que há tanto interesse atualmente em pesquisas de florestas tropicais ou dos oceanos, em mapeamento genético de organismos. A grande esperança de um novo tipo de desenvolvimento, menos poluidor que o atual, está principalmente na biotecnologia: produzir fontes de energia ou plásticas a partir de bactérias, alimentos em massa a partir de algas marinhas, remédios eficazes contra doenças que matam milhões a cada ano originados de novos princípios ativos de microrganismos ou plantas, etc.
A biodiversidade, assim, é também uma fonte potencial de imensas riquezas e o grande problema que se coloca é saber quem vai lucrar com isso: se os países ricos, que detêm a tecnologia essencial para descobrir novos princípios ativos e fabricá-los , ou se os países detentores das grandes reservas de biodiversidade, das florestas tropicais em especial. O mais provável é um acordo para compartilhar por igual as descobertas e os lucros, mas ainda estamos longe disso. Os países desenvolvidos, como sempre, têm um trunfo na mão, a tecnologia; mas alguns países subdesenvolvidos, os que têm grandes reservas de biodiversidade, têm agora outro trunfo, uma nova forma de matéria-prima que não está em processo de desvalorização, como as demais ( os minérios e os produtos agrícolas).




OS MOVIMENTOS ECOLÓGICOS




Nos países desenvolvidos, que se constituem como “sociedade de consumo”, a poluição tende a alcançar graus elevados. A publicidade intensa voltada para os lucros
das empresas, convida as pessoas a consumirem cada vez mais. As embalagens de plástico, lata ou papel tornam-se mais importantes que o próprio produto. A moda se altera rapidamente para que novos produtos possam ser fabricados e lançados no mercado. A cada ano que passa as mercadorias são feitas para durarem cada vez menos, para não diminuir nunca o ritmo de crescimento: um automóvel hoje é fabricado para durar no máximo quinze anos; as habitações construídas atualmente têm duração muito menor que as do passado e o mesmo se pode dizer das roupas, além de vários outros produtos.
Mas é justamente nesses países desenvolvidos que os movimentos ecológicos, as reivindicações populares por um ambiente melhor estão mais avançados. Isso porque a tradição democrática nessas nações é mais antiga e mais forte. Uma das principais formas de se avançar com a democracia, hoje, consiste em lutar por uma melhor qualidade de vida, o que já vem ocorrendo com as associações de consumidores, que lutam por seus direitos, com as organizações de moradores, que reivindicam certas melhorias em seus bairros ou lutam contra a instalação de alguma indústria poluidora, etc.
Além disso, os cidadãos de certos países exigindo - e, em boa parte, conseguindo - a aprovação de leis que combatam a poluição e facilitem os processos judiciais contra empresas que poluem o ambiente. Tudo isso leva os governos desses países desenvolvidos - que, normalmente, têm uma certa preocupação com eleições e votos - a se voltarem para a questão do meio ambiente, com planos de reurbanização de certas cidades, com a intensificação da fiscalização sobre as empresas poluidoras e com alguns tímidos projetos de reflorestamento ou preservação das poucas matas originais que restam.




A CONSERVAÇÃO DA NATUREZA

1. RECURSOS NATURAIS E CONSERVACIONISMO


Constituem recursos naturais todos os bens da natureza que o homem utiliza, como o ar, a água e o solo. Costuma-se classificar os recursos naturais em dois tipos principais: renováveis e não renováveis.
Os recursos naturais renováveis são aqueles que, uma vez utilizados pelo homem, podem ser repostos. Por exemplo: a vegetação (com o reflorestamento), as águas em geral (com excesso dos lençóis fósseis ou artesianos), o ar e o solo (que pode ser recuperado através do pousio, da proteção contra erosão, da adubação correta, da irrigação, etc.)
Os recursos naturais não renováveis são aqueles que se esgotam, ou seja, que não podem ser repostos. Exemplos: o petróleo, o carvão, o ferro, o manganês, o urânio, a bauxita (minério de alumínio), o estanho, etc. Uma vez utilizado o petróleo, por exemplo, através da produção - e da queima - da gasolina, do óleo diesel, do querosene, etc., é evidente que não será possível repor ou reciclar os restos.
Essa separação entre recursos renováveis e não renováveis é apenas relativa. O fato de um recurso ser renovável, ou reciclável, não significa que ele não possa ser depredado ou inutilizado: se houver mau uso ou descuido com a conservação, o recurso poderá se perder. Por exemplo, degradação ou destruição irreversível de solos, desaparecimento de uma vegetação rica e complexa, que e substituída por outra pobre e simples, etc. E mesmo o ar e a água, que são extremamente abundantes, existem em quantidades limitadas no planeta: a capacidade deles de suportar ou absorver poluição, sem afetar a existência da vida, evidentemente não é infinita. Dessa forma, mesmo os recursos ditos renováveis só podem ser utilizados a longo prazo por meio de métodos racionais, com uma preocupação conservacionista, isto é, que evite os desperdícios e os abusos.
Conservacionismo ou conservação dos recursos naturais é o nome que se dá à moderna preocupação em utilizar adequadamente os aspectos da natureza que o homem transforma ou consome. Conservar, nessa caso, não significa guardar e sim utilizar racionalmente. A natureza deve ser consumida ou utilizada para atender às necessidades do presente dos seres humanos, mas levando em conta o futuro, as novas gerações que ainda não nasceram, mas para as quais temos a obrigação de deixar um maio ambiente sadio.
Foi somente a partir da degradação do meio ambiente pelo homem - e da extinção de inúmeras espécies animais e vegetais - que surgiu essa preocupação conservacionista. O intenso uso da natureza pela sociedade moderna colocou, especialmente no nosso século, uma série de interrogações quanto ao futuro do meio ambiente: Quando se esgotarão alguns recursos básicos, como o petróleo ou o carvão? Como evitar a destruição das reservas florestais que ainda restam em nosso planeta e ao mesmo tempo garantir alimentos e recursos para crescente população mundial? O que fazer para que não ocorra a extinção total de certas espécies ameaçadas, como as baleias? Como os países subdesenvolvidos poderão resolver seus problemas de pobreza, fome e subnutrição sem depredar a natureza? O conservacionismo procura responder a essas e outras questões semelhantes conciliando o desenvolvimento econômico com a defesa do meio ambiente, por meio da utilização adequado dos bens fornecidos pela natureza.


2. O PATRIMÔNIO CULTURAL - ECOLÓGICO




Somente a utilização racional dos recursos naturais não basta. O conservacionismo é uma atitude necessária mas insuficiente. Além do uso racional da natureza, isto é, pelo maior tempo possível e beneficiando o maior números de pessoas, é necessário também preservá-la, resguardá-la tal como ela ainda existe em certas áreas. Daí ter surgido a idéia de patrimônio cultural e ecológico da humanidade. Trata-se de paisagens culturais ou obras de cultura que possui um valor inestimável; por exemplo, um rico ecossistema, uma cidade ou um monumento que retratem ou simbolizem uma época ou uma civilização. São exemplos de patrimônio ecológico: o Pantanal Mato-Grossense (que possui a fauna mais rica e variada do continente americano), a Amazônia, a floresta do Congo na África, a Antártida. Como patrimônios culturais podemos citar a Grande Muralha da China, as pirâmides do Egito as cidades de Meca e Jerusalém.
Por que surgiu a necessidade de preservar ou resguardar certas áreas ou obras, tanto culturais como naturais? E por que se fala em patrimônio cultural-ecológico?
Coma industrialização e a chamada vida moderna, tudo se transforma, tudo é constantemente modificado em nome do “progresso”. As memórias do passado e a diversidade criada pela natureza são destruídas a cada dia. Não se respeita nem a História - as tradições e obras das gerações anteriores - nem a natureza (os ecossistema em diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma idéia da riqueza do que foi produzido no planeta, para que sobrevivam amostras de todos os valores produzidos pela natureza ou pela História, é necessário definir esses patrimônios, que são áreas consideras intocadas, protegidas, resguardadas contra a ambição do lucro do comércio. O estabelecimento de áreas tombadas ou protegidas pelo poder público um avanço na defesa da natureza e das obras artísticas, arquitetônicas ou urbanísticas importantes do passado. Sem essa proteção, tais obras estariam condenadas à destruição para dar lucro a alguns.






Texto gentilmente cedido por Palmiro Sartorelli Neto (palmiro@aguianet.com.br)


www.sti.com.br





Material de Bioligia

*Clonagem de Seres Humanos

*Degradação do meio ambiente

*Floresta Amazonica

Clonagem de seres Humanos - biologia

A clonagem de seres humanos deve ser proibida?







Como se costuma acontecer com os dilemas éticos, é muito difícil emitir uma resposta taxativa. A História mostra que o homem usa tudo o que inventa ou descobre, por pior que seja. O grande e terrível exemplo é o da descoberta da maravilhosa energia do átomo, que levou a construção da bomba atômica. Nenhum cientista de renome defendeu, até agora, a clonagem de seres humanos, mas quem estuda a história da ciência sabe que cedo ou tarde um xerox de carne e osso brotará num laboratório.
Já existe uma empresa que cadastra interessados em ter um clone para um futuro transplante de rim.
"É ridículo pensar que não é possível clonar seres humanos", afirma o americano Don Wolf, dedicado a pesquisas de clonagem no Centro de Primatas do Oregon. "Se é que já não foi feito", disse Wolf ao jornal O Globo. A rigor, já foi feito, não com a cenografia espetacular da ovelha Dolly, mas com o recato de uma experiência até hoje confinada no laboratório. Em 1992, dois biólogos da Universidade George Washington, Jerry Hall e Robert Stillman, clonaram 48 embriões humanos, mas lhes deram apenas seis dias de vida. Ou seja, os criadores exterminaram a criatura antes que ela se tornasse um feto.

O feito de Hall e Stillman parece ter sido o limite aceito pela Comissão Nacional de Bioética dos Estados Unidos, criada pelo presidente Bill Clinton para apresentar sugestões sobre os dilemas suscitados pela técnica da clonagem. Instruído pela Comissão, Clinton mandou um projeto de lei ao Congresso autorizando a clonagem de embriões, tal como fizeram Hall e Stillman, mas proibindo a implantação os embriões em mulheres. "Não há nada de imoral em usar a clonagem em benefício da humanidade, mas é inconcebível cogitar o nascimento de crianças clonadas", disse Clinton.

Na prática, o governo americano quer considerar ilegal a clonagem de humanos. O projeto de Clinton, que está em debate no Congresso, nega verbas para as pesquisas e propõe multa de 250 000 dólares para o cientista que empreender a experiência. No Brasil, um projeto de clonagem só poderia ser feito com a autorização da Comissão de Biossegurança.

Até agora falamos de cientistas que, bem ou mal, podem ser controlados. Mas um dos efeitos negativos de Dolly foi despertar o Dr. Maluco. Ele responde pelo nome de Marc Riyard, é biólogo e vive em Montreal, no Canadá, onde integra o Movimento Religioso Raelian. O pessoal do Raelian fundou uma empresa com sede nas Bahamas, paraíso fiscal em vias de tornar-se também paraíso genético. A empresa oferece um serviço chamado Clonaid, capaz de satisfazer fantasias derivadas de Dolly - dos pais que pensariam em clonar um filho em coma ao milionário que gostaria de ter um clone no congelador para abastecer-se quando precisasse de um rim.

Segundo a Clonaid, milhares de pessoas já se inscreveram para obter um clone. O preço: 200.000 dólares.


Iracema - José de Alencar


IRACEMA

José de Alencar

Introdução
À
Terra Natal
Um Filho Ausente.

Prólogo (da 1ª edição)
Meu amigo.
Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco sítio da várzea, no doce lar, a que
povoa a numerosa prole, alegria e esperança do casal.
Imagino que é a hora mais ardente da sesta.
O Sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantas
languem. A natureza sofre a influência da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e
o gênio, as duas mais sublimes expressões do poder criador.
Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de reses, que figuram a
boiada. Era assim que eu brincava, há quantos anos, em outro sítio, não mui distante do seu. A
dona da casa, terna e incansável, manda abrir o coco verde, ou prepara o saboroso creme do
buriti para refrigerar o esposo, que pouco há recolheu de sua excursão pelo sítio, e agora
repousa embalando-se na macia e cômoda rede.
Abra então este livrinho, que lhe chega da corte imprevisto. Percorra suas páginas para
desenfastiar o espírito das cousas graves que o trazem ocupado.
Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se iludam as reminiscências da infância avivadas
recentemente. Se não, creio que, ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma
silvestre e bravio que lhe vem da várzea. Derrama-o, a brisa que perpassou os espatos da
carnaúba e a ramagem das aroeiras em flor.
Essa onda é a inspiração da pátria que volve a ela, agora e sempre, como volve de contínuo
o olhar do infante para o materno semblante que lhe sorri.
O livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois
vazado no coração cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser

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lido lá, na varanda da casa rústica ou na fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede,
entre os múrmures do vento que crepita na areia, ou farfalha nas palmas dos coqueiros.
Para lá, pois, que é o berço seu, o envio.
Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos estranho, esquecido talvez dos poucos
amigos, e só lembrado pela incessante desafeição, qual sorte será a do livro?
Que lhe falte hospitalidade, não há temer. As auras de nossos campos parecem tão
impregnadas dessa virtude primitiva, que quantas raças habitem aí a inspiram com o hálito vital.
Receio sim que seja recebido como estrangeiro e hóspede na terra dos meus.
Se porém, ao abordar às plagas do Mocoripe, for acolhido pelo bom cearense, prezado de
seus irmãos ainda mais na adversidade do que nos tempos prósperos, estou certo que o filho de
minha alma achará na terra de seu pai a intimidade e conchego da família.
O nome de outros filhos enobrece nossa província na política e na ciência; entre eles o meu,
hoje apagado, quando o trazia brilhantemente aquele que primeiro o criou. Neste momento
mesmo, a espada heróica de muito bravo cearense vai ceifando no campo da batalha ampla
messe de glória. Quem não pode ilustrar a terra natal canta as lendas suas, sem metro, na rude
toada de seus antigos filhos.
Acolha pois a primeira mostra e ofereça a nossos patrícios a quem é dedicada.
Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro; o outro lhe direi depois que o tenha
lido.
Muita cousa me ocorre dizer sobre o assunto, que talvez devera antecipar à leitura da obra,
para prevenir a surpresa de alguns e responder às observações ou reparos de outros.
Mas sempre fui avesso aos prólogos; em meu conceito eles fazem à obra o mesmo que o
pássaro à fruta antes de colhida; roubam as primícias do sabor literário. Por isso me reservo
para depois.
Na última página me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, em mais liberdade
do que teríamos neste pórtico do livro, onde as etiquetas mandam receber o público com a
gravidade e reverência devidas a tão alto senhor.
Rio de Janeiro — Maio de 1865.
J. DE ALENCAR.

3
4

1

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba;
Verdes mares que brilhais como líquida esmeralda aos raios do Sol nascente, perlongando as
alvas praias ensombradas de coqueiros.
Serenai verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro
manso resvale à flor das águas.
Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande
vela?
Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?
Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora;
Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro
que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.
A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:
— Iracema!...
O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a
espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes
criaturas, companheiras de seu infortúnio.
Nesse momento o lábio arranca d’alma um agro sorriso.
Que deixara ele na terra do exílio?
Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a Lua
passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.
Refresca o vento.
O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas; desaparece no horizonte. Abre-se a
imensidade dos mares; e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.
Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma
enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite.
Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade,
que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.

5

2

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu Iracema.
Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a asa da graúna, e
mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu
hálito perfumado.
Mais rápida que a corça selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas do Ipu, onde
campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé grácil e nu, mal roçando, alisava
apenas a verde pelúcia que vestia a terra com as primeiras águas.
Um dia, ao pino do Sol, ela repousava em um claro da floresta. Banhava-lhe o corpo a sombra
da oiticica, mais fresca do que o orvalho da noite. Os ramos da acácia silvestre esparziam flores
sobre os úmidos cabelos. Escondidos na folhagem os pássaros ameigavam o canto.
Iracema saiu do banho: o aljôfar d’água ainda a roreja, como à doce mangaba que corou em
manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do gará as flechas de seu arco, e
concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste.
A graciosa ará, sua companheira e amiga, brinca junto dela. Às vezes sobe aos ramos da
árvore e de lá chama a virgem pelo nome; outras remexe o uru de palha matizada, onde traz a
selvagem seus perfumes, os alvos fios do crautá, as agulhas da juçara com que tece a renda, e as
tintas de que matiza o algodão.
Rumor suspeito quebra a doce harmonia da sesta. Ergue a virgem os olhos, que o sol não
deslumbra; sua vista perturba-se.
Diante dela e todo a contemplá-la está um guerreiro estranho, se é guerreiro e não algum mau
espírito da floresta. Tem nas faces o branco das areias que bordam o mar; nos olhos o azul triste
das águas profundas. Ignotas armas e tecidos ignotos cobrem-lhe o corpo.
Foi rápido, como o olhar, o gesto de Iracema. A flecha embebida no arco partiu. Gotas de
sangue borbulham na face do desconhecido.
De primeiro ímpeto, a mão lesta caiu sobre a cruz da espada; mas logo sorriu. O moço
guerreiro aprendeu na religião de sua mãe, onde a mulher é símbolo de ternura e amor. Sofreu
mais d’alma que da ferida.
O sentimento que ele pôs nos olhos e no rosto, não o sei eu. Porém a virgem lançou de si o
arco e a uiraçaba, e correu para o guerreiro, sentida da mágoa que causara.
A mão que rápida ferira, estancou mais rápida e compassiva o sangue que gotejava. Depois
Iracema quebrou a flecha homicida: deu a haste ao desconhecido, guardando consigo a ponta
farpada.

6

O guerreiro falou:
— Quebras comigo a flecha da paz?
— Quem te ensinou, guerreiro branco, a linguagem de meus irmãos? Donde vieste a estas
matas, que nunca viram outro guerreiro como tu?
— Venho de bem longe, filha das florestas. Venho das terras que teus irmãos já possuíram, e
hoje têm os meus.
— Bem-vindo seja o estrangeiro aos campos dos tabajaras, senhores das aldeias, e à cabana
de Araquém, pai de Iracema.

7

3

O estrangeiro seguiu a virgem através da floresta.
Quando o Sol descambava sobre a crista dos montes, e a rola desatava do fundo da mata os
primeiros arrulhos, eles descobriram no vale a grande taba; e mais longe, pendurada no rochedo,
à sombra dos altos juazeiros, a cabana do pajé.
O ancião fumava à porta, sentado na esteira de carnaúba, meditando os sagrados ritos de
Tupã. O tênue sopro da brisa carmeava, como frocos de algodão, os compridos e raros cabelos
brancos. De imóvel que estava, sumia a vida nos olhos cavos e nas rugas profundas.
O pajé lobrigou os dois vultos que avançavam; cuidou ver a sombra de uma árvore solitária
que vinha alongando-se pelo vale fora.
Quando os viajantes entraram na densa penumbra do bosque, então seu olhar como o do tigre,
afeito às trevas, conheceu Iracema e viu que a seguia um jovem guerreiro, de estranha raça e
longes terras.
As tribos tabajaras, d’além Ibiapaba, falavam de uma nova raça de guerreiros, alvos como
flores de borrasca, e vindos de remota plaga às margens do Mearim. O ancião pensou que fosse
um guerreiro semelhante, aquele que pisava os campos nativos.
Tranqüilo, esperou.
A virgem aponta para o estrangeiro e diz:
— Ele veio, pai.
— Veio bem. É Tupã que traz o hóspede à cabana de Araquém.
Assim dizendo, o pajé passou o cachimbo ao estrangeiro; e entraram ambos na cabana.
O mancebo sentou-se na rede principal, suspensa no centro da habitação.
Iracema acendeu o fogo da hospitalidade; e trouxe o que havia de provisões para satisfazer a
fome e a sede: trouxe o resto da caça, a farinha-d’água, os frutos silvestres, os favos de mel e o
vinho de caju e ananás.
Depois a virgem entrou com a igaçaba, que enchera na fonte próxima de água fresca para
lavar o rosto e as mãos do estrangeiro.
Quando o guerreiro terminou a refeição, o velho pajé apagou o cachimbo e falou:
— Vieste?
— Vim, respondeu o desconhecido.
— Bem vieste. O estrangeiro é senhor na cabana de Araquém. Os tabajaras têm mil guerreiros
para defendê-lo, e mulheres sem conta para servi-lo. Dize, e todos te obedecerão.
— Pajé, eu te agradeço o agasalho que me deste. Logo que o Sol nascer, deixarei tua cabana e
teus campos aonde vim perdido; mas não devo deixá-los sem dizer-te quem é o guerreiro, que
fizeste amigo.

8

— Foi a Tupã que o pajé serviu: ele te trouxe, ele te levará. Araquém nada fez pelo hóspede;
não pergunta donde vem, e quando vai. Se queres dormir, desçam sobre ti os sonhos alegres; se
queres falar, teu hóspede escuta.
O estrangeiro disse:
— Sou dos guerreiros brancos, que levantaram a taba nas margens do Jaguaribe, perto do
mar, onde habitam os pitiguaras, inimigos de tua nação. Meu nome é Martim, que na tua língua
diz como filho de guerreiro; meu sangue, o do grande povo que primeiro viu as terras de tua
pátria. Já meus destroçados companheiros voltaram por mar às margens do Paraíba, de onde
vieram; e o chefe, desamparado dos seus, atravessa agora os vastos sertões do Apodi. Só eu de
tantos fiquei, porque estava entre os pitiguaras de Acaraú, na cabana do bravo Poti, irmão de
Jacaúna, que plantou comigo a árvore da amizade. Há três sóis partimos para a caça; e perdido
dos meus, vim aos campos dos tabajaras.
— Foi algum mau espírito da floresta que cegou o guerreiro branco no escuro da mata,
respondeu o ancião.
A cauã piou, além, na extrema do vale. Caía a noite.

9

4

O pajé vibrou o maracá, e saiu da cabana, porém o estrangeiro não ficou só.
Iracema voltara com as mulheres chamadas para servir o hóspede de Araquém, e os
guerreiros vindos para obedecer-lhe.
— Guerreiro branco, disse a virgem, o prazer embale tua rede durante a noite; e o Sol traga
luz a teus olhos, alegria à tua alma.
E assim dizendo, Iracema tinha o lábio trêmulo, e úmida a pálpebra.
— Tu me deixas? perguntou Martim.
— As mais belas mulheres da grande taba contigo ficam.
— Para elas a filha de Araquém não devia ter conduzido o hóspede à cabana do pajé.
— Estrangeiro, Iracema não pode ser tua serva. É ela que guarda o segredo da jurema e o
mistério do sonho. Sua mão fabrica para o pajé a bebida de Tupã.
O guerreiro cristão atravessou a cabana e sumiu-se na treva.
A grande taba erguia-se no fundo do vale, iluminada pelos fachos da alegria. Rugia o maracá;
ao quebro lento do canto selvagem, batia a dança em trono a rude cadência. O pajé inspirado
conduzia o sagrado tripúdio e dizia ao povo crente os segredos de Tupã.
O maior chefe da nação tabajara, Irapuã, descera do alto da serra Ibiapaba, para levar as tribos
do sertão contra o inimigo pitiguara. Os guerreiros do vale festejam a vinda do chefe, e o próximo
combate.
O mancebo cristão viu longe o clarão da festa, e passou além, e olhou o céu azul sem nuvens.
A estrela morta, que então brilhava sobre a cúpula da floresta, guiou seu passo firme para as
frescas margens do Acaraú.
Quando ele transmontou o vale e ia penetrar na mata, o vulto de Iracema surgiu. A virgem
seguira o estrangeiro como a brisa sutil que resvala sem murmurejar por entre a ramagem.
— Por que, disse ela, o estrangeiro abandona a cabana hospedeira sem levar o presente da
volta? Quem fez mal ao guerreiro branco na terra dos tabajaras?
O cristão sentiu quanto era justa a queixa; e achou-se ingrato.
— Ninguém fez mal ao teu hóspede, filha de Araquém. Era o desejo de ver seus amigos que o
afastava dos campos dos tabajaras. Não levava o presente da volta; mas leva em sua alma a
lembrança de Iracema.
— Se a lembrança de Iracema estivesse n’alma do estrangeiro, ela não o deixaria partir. O
vento não leva a areia da várzea, quando a areia bebe a água da chuva.
A virgem suspirou:
— Guerreiro branco, espera que Caubi volte da caça. O irmão de Iracema tem o ouvido sutil
que pressente a boicininga entre os rumores da mata; e o olhar do oitibó que vê melhor na treva.
Ele te guiará às margens do rio das garças.

10

— Quanto tempo se passará antes que o irmão de Iracema esteja de volta na cabana de
Araquém?
— O Sol, que vai nascer, tornará com o guerreiro Caubi aos campos do Ipu.
— Teu hóspede espera, filha de Araquém; mas se o Sol tornando não trouxer o irmão de
Iracema, ele levará o guerreiro branco à taba dos pitiguaras.
Martim voltou à cabana do pajé.
A alva rede que Iracema perfumara com a resina do benjoim guardava-lhe um sono calmo e
doce.
O cristão adormeceu ouvindo suspirar, entre os murmúrios da floresta, o canto mavioso da
virgem indiana.

11

5

O galo-da-campina ergue a poupa escarlate fora do ninho. Seu límpido trinado anuncia a
aproximação do dia.
Ainda a sombra cobre a terra. Já o povo selvagem colhe as redes na grande taba e caminha
para o banho. O velho pajé que velou toda a noite, falando às estrelas, conjurando os maus
espíritos das trevas, entra furtivamente na cabana.
Eis retroa o boré pela amplidão do vale.
Travam das armas os rápidos guerreiros, e correm ao campo. Quando foram todos na vasta
ocara circular, Irapuã, o chefe, soltou o grito de guerra:
— Tupã deu à grande nação tabajara toda esta terra. Nós guardamos as serras, donde manam
os córregos, com os frescos ipus onde cresce a maniva e o algodão; e abandonamos ao bárbaro
potiguara, comedor de camarão, as areias nuas do mar, com os secos tabuleiros sem água e sem
florestas. Agora os pescadores da praia, sempre vencidos, deixam vir pelo mar a raça branca dos
guerreiros de fogo, inimigos de Tupã. Já os emboabas estiveram no Jaguaribe; logo estarão em
nossos campos; e com eles os potiguaras. Faremos nós, senhores das aldeias, como a pomba, que
se encolhe em seu ninho, quando a serpente enrosca pelos galhos?
O irado chefe brande o tacape e o arremessa no meio do campo. Derrubando a fronte, cobre o
rúbido olhar:
— Irapuã falou; disse.
O mais moço dos guerreiros avança:
— O gavião paira nos ares. Quando a nambu levanta, ele cai das nuvens e rasga as entranhas
da vítima. O guerreiro tabajara, filho da serra, é como o gavião.
Troa e retroa a pocema da guerra.
O jovem guerreiro erguera o tacape; e por sua vez o brandiu. Girando no ar, rápida e
ameaçadora, a arma do chefe passou de mão em mão.
O velho Andira, irmão do pajé, a deixou tombar, e calcou no chão, com o pé ágil ainda e
firme.
Pasma o povo tabajara da ação desusada. Voto de paz em tão provado e impetuoso guerreiro!
É o velho herói, que cresceu na sanha, crescendo nos anos, é o feroz Andira quem derrubou o
tacape, núncio da próxima luta?
Incertos e mudos todos escutam:
— Andira, o velho Andira, bebeu mais sangue na guerra do que já beberam cauim nas festas
de Tupã, todos quantos guerreiros alumia agora a luz de seus olhos. Ele viu mais combates em
sua vida, do que luas lhe despiram a fronte. Quanto crânio de potiguara escalpelou sua mão
implacável, antes que o tempo lhe arrancasse o primeiro cabelo? E o velho Andira nunca temeu

12

que o inimigo pisasse a terra de seus pais; mas alegrava-se quando ele vinha, e sentia com o faro
da guerra a juventude renascer no corpo decrépito, como a árvore seca renasce com o sopro do
inverno. A nação tabajara é prudente. Ela deve encostar o tacape da luta para tanger o membi da
festa. Celebra, Irapuã, a vinda dos emboabas e deixa que cheguem todos aos nossos campos.
Então Andira te promete o banquete da vitória.
Desabriu enfim Irapuã a funda cólera:
— Fica tu, escondido entre as igaçabas de vinho, fica, velho morcego, porque temes a luz do
dia, e só bebes o sangue da vítima que dorme. Irapuã leva a guerra no punho de seu tacape. O
terror que ele inspira voa com o rouco som do boré. O potiguara já tremeu ouvindo-o rugir na
serra, mais forte que o ribombo do mar.

13

6

Martim vai a passo e passo por entre os altos juazeiros que cercam a cabana do pajé.
Era o tempo em que o doce aracati chega do mar, e derrama a deliciosa frescura pelo árido
sertão. A planta respira; um doce arrepio erriça a verde coma da floresta.
O cristão contempla o ocaso do Sol. A sombra, que desce dos montes e cobre o vale, penetra
sua alma. Lembra-se do lugar onde nasceu, dos entes queridos que ali deixou. Sabe ele se tornará
a vê-los algum dia?
Em torno carpe a natureza o dia que expira. Soluça a onda trépida e lacrimosa; geme a brisa
na folhagem; o mesmo silêncio anela de aflito.
Iracema parou em face do jovem guerreiro:
— É a presença de Iracema que perturba a serenidade no rosto do estrangeiro?
Martim pousou brandos olhos na face da virgem:
— Não, filha de Araquém: tua presença alegra, como a luz da manhã. Foi a lembrança da
pátria que trouxe a saudade ao coração pressago.
— Uma noiva te espera?
O forasteiro desviou os olhos. Iracema dobrou a cabeça sobre a espádua, como a tenra palma
da carnaúba, quando a chuva peneira na várzea.
— Ela não é mais doce do que Iracema, a virgem dos lábios de mel, nem mais formosa!
murmurou o estrangeiro.
— A flor da mata é formosa quando tem rama que a abrigue, e tronco onde se enlace. Iracema
não vive n’alma de um guerreiro: nunca sentiu a frescura de seu sorriso.
Emudeceram ambos, com os olhos no chão, escutando a palpitação dos seios que batiam
opressos.
A virgem falou enfim:
— A alegria voltará logo à alma do guerreiro branco; porque Iracema quer que ele veja antes
da noite a noiva que o espera.
Martim sorriu do ingênuo desejo da filha do pajé.
— Vem! disse a virgem.
Atravessaram o bosque e desceram ao vale. Onde morria a falda da colina o arvoredo era
basto: densa abóbada de folhagem verde-negra cobria o ádito agreste, reservado aos mistérios do
rito bárbaro.

14

Era de jurema o bosque sagrado. Em torno corriam os troncos rugosos da árvore de Tupã; dos
galhos pendiam ocultos pela rama escura os vasos do sacrifício; lastravam o chão as cinzas de
extinto fogo, que servira à festa da última lua.
Antes de penetrar o recôndito sítio, a virgem que conduzia o guerreiro pela mão hesitou,
inclinando o ouvido sutil aos suspiros da brisa. Todos os ligeiros rumores da mata tinham uma
voz para a selvagem filha do sertão. Nada havia porém de suspeito no intenso respiro da floresta.
Iracema fez ao estrangeiro um gesto de espera e silêncio, e depois desapareceu no mais
sombrio do bosque. O Sol ainda pairava suspenso no viso da serrania; e já noite profunda enchia
aquela solidão.
Quando a virgem tornou, trazia numa folha gotas de verde e estranho licor vazadas da
igaçaba, que ela tirara do seio da terra. Apresentou ao guerreiro a taça agreste.
— Bebe!
Martim sentiu perpassar nos olhos o sono da morte; porém logo a luz inundou-lhe os seios
d’alma; a força exuberou em seu coração. Reviveu os dias passados melhor do que os tinha
vivido: fruiu a realidade de suas mais belas esperanças.
Ei-lo que volta à terra natal, abraça sua velha mãe, revê mais lindo e terno o anjo puro dos
amores infantis.
Mas por que, mal de volta ao berço da pátria, o jovem guerreiro de novo abandona o teto
paterno e demanda o sertão?
Já atravessa as florestas; já chega aos campos do Ipu. Busca na selva a filha do pajé. Segue o
rastro ligeiro da virgem arisca, soltando à brisa com o crebro suspiro o doce nome:
— Iracema! Iracema!...
Já a alcança e cinge-lhe o braço pelo talhe esbelto.
Cedendo à meiga pressão, a virgem reclinou-se ao peito do guerreiro, e ficou ali trêmula e
palpitante como a tímida perdiz, quando o terno companheiro lhe arrufa com o bico a macia
penugem.
O lábio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome, e soluçou, como se chamara outro
lábio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no ósculo ardente.
E a fronte reclinara, e a flor do sorriso desabrochava já para deixar-se colher.
Súbito a virgem tremeu; soltando-se rápida do braço que a cingia, travou do arco.
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7

Iracema passou entre as árvores, silenciosa como uma sombra: seu olhar cintilante coava
entre as folhas, qual frouxos raios de estrelas; ela escutava o silêncio profundo da noite e aspirava
as auras sutis que aflavam.
Parou. Uma sombra resvalava entre as ramas; e nas folhas crepitava um passo ligeiro, se não
era o roer de algum inseto. A pouco e pouco o tênue rumor foi crescendo e a sombra avultou.
Era um guerreiro. De um salto a virgem estava em face dele, trêmula de susto e mais de
cólera.
— Iracema! exclamou o guerreiro recuando.
— Anhangá turbou sem dúvida o sono de Irapuã, que o trouxe perdido ao bosque da jurema,
onde nenhum guerreiro penetra sem a vontade de Araquém.
— Não foi Anhangá, mas a lembrança de Iracema, que turbou o sono do primeiro guerreiro
tabajara. Irapuã desceu de seu ninho de águia para seguir na várzea a garça do rio. Chegou, e
Iracema fugiu de seus olhos. As vozes da taba contaram ao ouvido do chefe que um estrangeiro
era vindo à cabana de Araquém.
A virgem estremeceu. O guerreiro cravou nela o olhar abrasado:
— O coração aqui no peito de Irapuã ficou tigre. Pulou de raiva. Veio farejando a presa. O
estrangeiro está no bosque, e Iracema o acompanhava. Quero beber-lhe o sangue todo: quando o
sangue do guerreiro branco correr nas veias do chefe tabajara, talvez o ame a filha de Araquém.
A pupila negra da virgem cintilou na treva, e de seu lábio borbulhou, como gotas do leite
cáustico da eufórbia, um sorriso de desprezo:
— Nunca Iracema daria seu seio, que o espírito de Tupã habita só, ao guerreiro mais vil dos
guerreiros tabajaras! Torpe é o morcego porque foge da luz e bebe o sangue da vítima
adormecida!...
— Filha de Araquém, não assanha o jaguar! O nome de Irapuã voa mais longe que o goaná do
lago, quando sente a chuva além das serras. Que o guerreiro branco venha, e o seio de Iracema se
abra para o vencedor.
— O guerreiro branco é hóspede de Araquém. A paz o trouxe aos campos do Ipu, a paz o
guarda. Quem ofender o estrangeiro, ofende o pajé.
Rugiu de sanha o chefe tabajara:
— A raiva de Irapuã só ouve agora o grito da vingança. O estrangeiro vai morrer.
— A filha de Araquém é mais forte que o chefe dos guerreiros, disse Iracema travando da
inúbia. Ela tem aqui a voz de Tupã, que chama seu povo.
— Mas ela não chamará! respondeu o chefe escarnecendo.

17

— Não, porque Irapuã vai ser punido pela mão de Iracema. Seu primeiro passo, é o passo da
morte.
A virgem retraiu d’um salto o avanço que tomara, e vibrou o arco. O chefe cerrou ainda o
punho do formidável tacape; mas pela vez primeira sentiu que pesava ao braço robusto. O golpe
que devia ferir Iracema, ainda não alçado, já lhe trespassava, a ele próprio, o coração.
Conheceu quanto o varão forte, é pela sua mesma fortaleza, mais vencido das grandes
paixões.
— A sombra de Iracema não esconderá sempre o estrangeiro à vingança de Irapuã. Vil é o
guerreiro, que se deixa proteger por uma mulher.
Dizendo estas palavras, o chefe desapareceu entre as árvores. A virgem sempre alerta, volveu
para o cristão adormecido; e velou o resto da noite a seu lado. As emoções recentes, que agitaram
sua alma, a abriram ainda mais à doce afeição, que iam filtrando nela os olhos do estrangeiro.
Desejava abrigá-lo contra todo o perigo, recolhê-lo em si como em um asilo impenetrável.
Acompanhando o pensamento, seus braços cingiam a cabeça do guerreiro, e a apertavam ao seio.
Mas quando passou a alegria de o ver salvo dos perigos da noite, entrou-a mais viva a
inquietação, com a lembrança dos novos perigos que iam surgir.
— O amor de Iracema é como o vento dos areais; mata a flor das árvores, suspirou a virgem.
E afastou-se lentamente.
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19

8

A alvorada abriu o dia e os olhos do guerreiro branco. A luz da manhã dissipou os sonhos da
noite, e arrancou de sua alma a lembrança do que sonhara. Ficou apenas um vago sentir, como
fica na moita o perfume do cacto que o vento da serra desfolha na madrugada.
Não sabia onde estava.
À saída do bosque sagrado encontrou Iracema: a virgem reclinava num tronco áspero do
arvoredo; tinha os olhos no chão; o sangue fugira das faces; o coração lhe tremia nos lábios,
como gota de orvalho nas folhas do bambu.
Não tinha sorrisos, nem cores, a virgem indiana; não tem borbulhas, nem rosas, a acácia que o
sol crestou; não tem azul, nem estrelas, a noite que enlutam os ventos.
— As flores da mata já abriram aos raios do Sol; as aves já cantaram, disse o guerreiro. Por
que só Iracema curva a fronte e emudece?
A filha do pajé estremeceu. Assim estremece a verde palma, quando a haste frágil foi abalada;
rorejam do espato as lágrimas da chuva, e os leques ciciam brandamente.
— O guerreiro Caubi vai chegar à taba de seus irmãos. O estrangeiro poderá partir com o Sol
que vem nascendo.
— Iracema quer ver o estrangeiro fora dos campos dos tabajaras; então a alegria voltará a seu
seio.
— A juruti quando a árvore seca abandona o ninho em que nasceu. Nunca mais a alegria
voltará ao seio de Iracema: ela vai ficar, como o tronco nu, sem ramas, nem sombras.
Martim amparou o corpo trêmulo da virgem; ela reclinou lânguida sobre o peito do guerreiro,
como o tenro pâmpano da baunilha que enlaça o rijo galho do angico.
O mancebo murmurou:
— Teu hóspede fica, virgem dos olhos negros: ele fica para ver abrir em tuas faces a flor da
alegria, e para colher, como a abelha, o mel de teus lábios.
Iracema soltou-se dos braços do mancebo, e olhou-o com tristeza:
— Guerreiro branco, Iracema é filha do pajé, e guarda o segredo da jurema. O guerreiro que
possuísse a virgem de Tupã morreria.
— E Iracema?
— Pois que tu morrias!...
Esta palavra foi sopro de tormenta. A cabeça do mancebo vergou e pendeu sobre o peito; mas
logo se ergueu.
— Os guerreiros de meu sangue trazem a morte consigo, filha dos tabajaras. Não a temem
para si, não a poupam para o inimigo. Mas nunca fora do combate eles deixarão aberto o

20

camucim da virgem na taba de seu hóspede. A verdade falou pela boca de Iracema. O estrangeiro
deve abandonar os campos dos tabajaras.
— Deve, respondeu a virgem como um eco.
Depois sua voz suspirou:
— O mel dos lábios de Iracema é como o favo que a abelha fabrica no tronco da guabiroba:
tem na doçura o veneno. A virgem dos olhos azuis e dos cabelos do sol guarda para seu guerreiro
na taba dos brancos o mel da açucena.
Martim afastou-se rápido, e voltou, mas lentamente. A palavra tremia em seu lábio:
— O estrangeiro partirá para que o sossego volte ao seio da virgem.
— Tu levas a luz dos olhos de Iracema, e a flor de sua alma.
Reboa longe na selva um clamor estranho. O olhos do mancebo alongam-se.
— É o grito de alegria do guerreiro Caubi, disse a virgem. O irmão de Iracema anuncia sua
boa chegada aos campos dos tabajaras.
— Filha de Araquém, guia teu hóspede à cabana. É tempo de partir.
Eles caminharam par a par, como dois jovens cervos que ao pôr-do-sol atravessam a capoeira
recolhendo ao aprisco de onde lhes traz a brisa um faro suspeito.
Quando passavam entre os juazeiros, viram que atravessava além o guerreiro Caubi, vergando
os ombros robustos ao peso da caça. Iracema caminhou para ele.
O estrangeiro entrou só na cabana.
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9

O sono da manhã pousava nos olhos do pajé como névoas de bonança pairam ao romper do
dia sobre as profundas cavernas da montanha.
Martim parou indeciso, mas o rumor de seu passo penetrou no ouvido do ancião, e abalou o
corpo decrépito.
— Araquém dorme! murmurou o guerreiro devolvendo o passo.
O velho ficou imóvel:
— O pajé dorme porque já Tupã voltou o rosto para a terra e a luz correu os maus espíritos da
treva. Mas o sono é leve nos olhos de Araquém, como o fumo do sapé no cocuruto da serra. Se o
estrangeiro veio para o pajé, fale; seu ouvido escuta.
— O estrangeiro veio para te anunciar que parte.
— O hóspede é o senhor na cabana de Araquém; todos os caminhos estão abertos para ele.
Tupã o leve à taba dos seus.
Vieram Caubi e Iracema:
— Caubi voltou, disse o guerreiro tabajara. Traz a Araquém o melhor de sua caça.
— O guerreiro Caubi é um grande caçador de montes e florestas. Os olhos de seu pai gostam
de vê-lo.
O velho abriu as pálpebras e cerrou-as logo:
— Filha de Araquém, escolhe para teu hóspede o presente da volta e prepara o moquém da
viagem. Se o estrangeiro precisa de guia, o guerreiro Caubi, senhor do caminho, o acompanhará.
O sono voltou aos olhos do pajé.
Enquanto Caubi pendurava no fumeiro as peças de caça, Iracema colheu a sua alva rede de
algodão com franjas de penas, e acomodou-a dentro do uru de palha trançada.
Martim esperava na porta da cabana. A virgem veio a ele:
— Guerreiro, que levas o sono de meus olhos, leva a minha rede também. Quando nela
dormires, falem em tua alma os sonhos de Iracema.
— Tua rede, virgem dos tabajaras, será minha companheira no deserto: venha embora o vento
frio da noite, ela guardará para o estrangeiro o calor e o perfume do seio de Iracema.
Caubi saiu para ir à sua cabana, que ainda não tinha visto depois da volta. Iracema foi
preparar o moquém da viagem. Ficaram sós na cabana o pajé, que ressonava, e o mancebo com
sua tristeza.
O Sol, transmontando, já começava a declinar para o ocidente, quando o irmão de Iracema
tornou da grande taba.
— O dia vai ficar triste, disse Caubi. A sombra caminha para a noite. É tempo de partir.

23

A virgem pousou a mão de leve no punho da rede de Araquém.
— Ele vai! murmuraram os lábios trêmulos.
O pajé levantou-se em pé no meio da cabana e acendeu o cachimbo. Ele e o mancebo
trocaram a fumaça da despedida.
— Bem-ido seja o hóspede, como foi bem-vindo à cabana de Araquém.
O velho andou até a porta, para soltar ao vento uma espessa baforada de tabaco; quando o
fumo se dissipou no ar, ele murmurou:
— Jurupari se esconda para deixar passar o hóspede do pajé.
Araquém voltou à rede e dormiu de novo. O mancebo tomou as suas armas mais pesadas que,
chegando, suspendera às varas da cabana, e se dispôs a partir.
Adiante seguiu Caubi; a alguma distância o estrangeiro; logo após, Iracema.
Desceram a colina e entraram na mata sombria. O sabiá-do-sertão, mavioso cantor da tarde,
escondido nas moitas espessas da ubaia, soltava já os prelúdios da suave endecha.
A virgem suspirou:
— A tarde é a tristeza do Sol. Os dias de Iracema vão ser longas tardes sem manhã, até que
venha para ela a grande noite.
O mancebo se voltara. Seu lábio emudeceu, mas os olhos falaram. Uma lágrima correu pela
face guerreira, como as umidades que durante os ardores do estio transudam da escarpa dos
rochedos.
Caubi, avançando sempre, sumira-se entre a densa ramagem.
O seio da filha de Araquém arfou, como o esto da vaga que se franja de espuma, e soluçou.
Mas sua alma, negra de tristura, teve ainda um pálido reflexo para iluminar a seca flor das faces.
Assim em noite escura vem um fogo-fátuo luzir as brancas areias do tabuleiro.
— Estrangeiro, toma o último sorriso de Iracema... e foge!
A boca do guerreiro pousou na boca mimosa da virgem. Ficaram ambas assim unidas como
dois frutos gêmeos do araçá, que saíram do seio da mesma flor.
A voz de Caubi chamou o estrangeiro. Iracema abraçou para não cair o tronco de uma
palmeira.
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10

Na cabana silenciosa, medita o velho pajé.
Iracema está apoiada no tronco rudo, que serve de esteio. Os grandes olhos negros, fitos nos
recortes da floresta e rasos de pranto, parece estão naqueles olhares longos e trêmulos enfiando e
desfiando os aljôfares das lágrimas, que rorejam as faces.
A ará, pousada no jirau fronteiro, alonga para sua formosa senhora os verdes tristes olhos.
Desde que o guerreiro branco pisou a terra dos tabajaras, Iracema a esqueceu.
Os róseos lábios da virgem não se abriram mais para que ela colhesse entre eles a polpa da
fruta ou a papa do milho verde; nem a doce mão a afagara uma só vez, alisando a penugem
dourada da cabeça.
Se repetia o mavioso nome da senhora, o sorriso de Iracema já não se voltava para ela, nem o
ouvido parecia escutar a voz da companheira e amiga, que dantes tão suave era ao seu coração.
Triste dela! A gente tupi a chamava jandaia, porque sempre alegre estrugia os campos com
seu canto fremente. Mas agora, triste e muda, desdenhada de sua senhora, não parecia mais a
linda jandaia, e sim o feio urutau que somente sabe gemer.
O Sol remontou a umbria das serras; seus raios douravam apenas o viso das eminências.
A surdina merencória da tarde, que precede o silêncio da noite, começava de velar os crebros
rumores do campo. Uma ave noturna, talvez iludida com a sombra mais espessa do bosque,
desatou o estrídulo.
O velho ergueu a fronte calva:
— Foi o canto da inhuma que acordou o ouvido de Araquém? disse ele admirado.
A virgem estremecera, e já fora da cabana, voltou-se para responder à pergunta do pajé:
— É o grito de guerra do guerreiro Caubi!
Quando o segundo pio da inhuma ressoou, Iracema corria na mata, como a corça perseguida
pelo caçador. Só respirou chegando à campina, que recortava o bosque, como um grande lago.
Quem seus olhos primeiro viram, Martim, estava tranqüilamente sentado em uma sapopema,
olhando o que passava ali. Contra, cem guerreiros tabajaras, com Irapuã à frente, formavam arco.
O bravo Caubi os afrontava a todos, com o olhar cheio de ira e as armas valentes empunhadas na
mão robusta.
O chefe exigira a entrega do estrangeiro, e o guia respondera simplesmente:
— Matai Caubi antes.
A filha do pajé passara como uma flecha: ei-la diante de Martim, opondo também seu corpo
gentil aos golpes dos guerreiros. Irapuã soltou o bramido da onça atacada na furna.

26

— Filha do pajé, disse Caubi em voz baixa. Conduz o estrangeiro à cabana: só Araquém pode
salvá-lo.
Iracema voltou-se para o guerreiro branco:
— Vem!
Ele ficou imóvel.
— Se tu não vens, disse a virgem; Iracema morrerá contigo.
Martim ergueu-se; mas longe de seguir a virgem, caminhou direito a Irapuã. A sua espada
flamejou no ar.
— Os guerreiros de meu sangue, chefe, jamais recusaram combate. Se aquele que tu vês não
foi o primeiro a provocá-lo, é porque seus pais lhe ensinaram a não derramar sangue na terra
hospedeira.
O chefe tabajara rugiu de alegria; sua mão possante brandiu o tacape. Mas os dois campeões
mal tiveram tempo de medir-se com os olhos; quando fendiam o primeiro golpe, já Caubi e
Iracema estavam entre eles.
A filha de Araquém debalde rogava ao cristão, debalde o cingia em seus braços buscando
arrancá-lo ao combate. De seu lado Caubi em vão provocava Irapuã para atrair a si a raiva do
chefe.
A um gesto de Irapuã, os guerreiros afastaram os dois irmãos; o combate prosseguiu.
De repente o rouco som da inúbia reboou pela mata; os filhos da serra estremeceram
reconhecendo o estrídulo do búzio guerreiro dos pitiguaras, senhores das praias ensombradas de
coqueiros. O eco vinha da grande taba, que o inimigo talvez assaltava já.
Os guerreiros precipitaram, levando por diante o chefe. Com o estrangeiro só ficou a filha de
Araquém.
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11

Os guerreiros tabajaras, acorridos à taba, esperavam o inimigo diante da caiçara.
Não vindo, eles saíram a buscá-lo.
Bateram as matas em torno e percorreram os campos; nem vestígios encontraram da
passagem dos pitiguaras; mas o conhecido frêmito do búzio das praias tinha ressoado ao ouvido
dos guerreiros da montanha; não havia duvidar.
Suspeitou Irapuã que fosse um ardil da filha de Araquém para salvar o estrangeiro, e
caminhou direito à cabana do pajé. Como trota o guará pela orla da mata, quando vai seguindo o
rastro da presa escápula, assim estugava o passo o sanhudo guerreiro.
Araquém viu entrar em sua cabana o grande chefe da nação tabajara, e não se moveu. Sentado
na rede, com as pernas cruzadas, escutava Iracema. A virgem referia os sucessos da tarde;
avistando a figura sinistra de Irapuã, saltou sobre o arco e uniu-se ao flanco do jovem guerreiro
branco.
Martim a afastou docemente de si, e promoveu o passo.
A proteção, de que o cercava a ele guerreiro a virgem tabajara, o desgostava.
— Araquém, a vingança dos tabajaras espera o guerreiro branco; Irapuã veio buscá-lo.
— O hóspede é amigo de Tupã; quem ofender o estrangeiro ouvirá rugir o trovão.
— O estrangeiro foi quem ofendeu a Tupã, roubando a sua virgem, que guarda os sonhos da
jurema.
— Tua boca mente como o ronco da jibóia! exclamou Iracema.
Martim disse:
— Irapuã é vil e indigno de ser chefe de guerreiros valentes!
O pajé falou grave e lento:
— Se a virgem abandonou ao guerreiro branco a flor de seu corpo, ela morrerá; mas o
hóspede de Tupã é sagrado; ninguém lhe tocará, todos o servirão.
Irapuã bramiu; o grito rouco troou nas arcas do peito, como o frêmito da sucuri na profundeza
do rio.
— A raiva de Irapuã não pode mais ouvir-te, velho pajé! Caia ela sobre ti, se ousas subtrair o
estrangeiro à vingança dos tabajaras.
O velho Andira, irmão do pajé, entrou na cabana; trazia no punho o terrível tacape; e nos
olhos uma raiva ainda mais terrível.
— O morcego vem te chupar o sangue, se é que tens sangue e não mel nas veias, tu que
ameaças em sua cabana o velho pajé.
Araquém afastou o irmão:

29

— Paz e silêncio, Andira.
O pajé desenvolvera a alta e magra estatura, como a caninana assanhada, que se enrista sobre
a cauda, para afrontar a vítima em face. As rugas afundaram, e, repuxando as peles engelhadas,
esbugalharam os dentes alvos e afilados:
— Ousa um passo mais, e as iras de Tupã te esmagarão sob o peso desta mão seca e mirrada!
— Neste momento, Tupã não é contigo! replicou o chefe.
O pajé riu; e o seu riso sinistro reboou pelo espaço como o regougo da ariranha.
— Ouve seu trovão, e treme em teu seio, guerreiro, como a terra em sua profundeza.
Araquém proferindo essa palavra terrível avançou até o meio da cabana; ali ergueu a grande
pedra e calcou o pé com força no chão: súbito, abriu-se a terra. Do antro profundo saiu um
medonho gemido, que parecia arrancado das entranhas do rochedo.
Irapuã não tremeu, nem enfiou de susto; mas sentiu turvar-se a luz nos olhos, e a voz nos
lábios.
— O senhor do trovão é por ti; o senhor da guerra, será por Irapuã.
O torvo guerreiro deixou a cabana; em pouco seu grande vulto mergulhou nas sombras do
crepúsculo.
O pajé e seu irmão travaram a prática na porta da cabana.
Martim, ainda surpreso do que vira, não tirava os olhos da funda cava, que a planta do velho
pajé abrira no chão da cabana. Um surdo rumor, como o eco das ondas quebrando nas praias,
ruidava ali.
O guerreiro cristão cismava; ele não podia crer que o deus dos tabajaras desse ao seu
sacerdote tamanho poder.
Araquém, percebendo o que passava n’alma do estrangeiro, acendeu o cachimbo e travou do
maracá:
— É tempo de aplacar as iras de Tupã, e calar a voz do trovão.
Disse e partiu da cabana.
Iracema achegou-se então do mancebo; levava os lábios em riso, os olhos em júbilo:
— O coração de Iracema está como o abati n’água do rio. Ninguém fará mal ao guerreiro
branco na cabana de Araquém.
— Arreda-te do inimigo, virgem dos tabajaras, respondeu o estrangeiro com aspereza de voz.
Voltando brusco para o lado oposto, furtou o semblante aos olhos ternos e queixosos da
virgem.
— Que fez Iracema, para que o guerreiro branco desvie seus olhos dela, como se fora o verme
da terra?
As falas da virgem ressoaram docemente no coração de Martim. Assim ressoam os
murmúrios da aragem nas frondes da palmeira. O mancebo sentiu raiva de si, e pena dela:
— Não ouves tu, virgem formosa? exclamou ele apontando para o antro fremente.
— É a voz de Tupã!
— Teu deus falou pela boca do pajé: “Se a virgem de Tupã abandonar ao estrangeiro a flor de
seu corpo, ele morrerá!...”
Iracema pendeu a fronte abatida:
— Não é voz de Tupã que ouve teu coração, guerreiro de longes terras, é o canto da virgem
branca, que te chama!
O rumor estranho que saía das profundezas da terra apagou-se de repente: fez-se na cabana
tão grande silêncio que ouvia-se pulsar o sangue na artéria do guerreiro, e tremer o suspiro no
lábio da virgem.

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12

O dia enegreceu; era noite já.
O pajé tornara à cabana; sopesando de novo a grossa laje, fechou com ela a boca do antro.
Caubi chegara também da grande taba, onde com seus irmãos guerreiros se recolhera depois que
bateram a floresta, em busca do inimigo pitiguara.
No meio da cabana, entre as redes armadas em quadro, estendeu Iracema a esteira da
carnaúba, e sobre ela serviu os restos da caça, e a provisão de vinhos da última lua. Só o guerreiro
tabajara achou sabor na ceia, porque o fel do coração que a tristeza espreme não amargava seu
lábio.
O pajé bebia no cachimbo o fumo sagrado de Tupã que lhe enchia as arcas do peito; o
estrangeiro respirava ar às golfadas para refrescar-lhe o sangue efervescente; a virgem destilava
sua alma como o mel de um favo, nos crebros soluços que lhe estalavam entre os lábios trêmulos.
Já partiu Caubi para a grande taba; o pajé traga as baforadas do fumo, que prepara o mistério
do sagrado rito.
Levanta-se no ressono da noite um grito vibrante, que remonta ao céu.
Martim ergue a fronte e inclina o ouvido. Outro clamor semelhante ressoa. O guerreiro
murmura, que o ouça a virgem e só ela:
— Escutou, Iracema, cantar a gaivota?
— Iracema escutou o grito de uma ave que ela não conhece.
— É a atiati, a garça do mar, e tu és a virgem da serra, que nunca desceu às alvas praias onde
arrebentam as vagas.
— As praias são dos pitiguaras, senhores das palmeiras.
Os guerreiros da grande nação que habitava as bordas do mar se chamavam a si mesmos
pitiguaras, senhores dos vales; mas os tabajaras, seus inimigos, por escárnio os apelidavam
potiguaras, comedores de camarão.
Iracema não quis ofender o guerreiro branco; por isso, falando dos pitiguaras, não lhes
recusou o nome guerreiro que eles haviam tomado para si.
O estrangeiro reteve por um instante a palavra no seu lábio prudente, enquanto refletia:
— O canto da gaivota é o grito de guerra do valente Poti, amigo de teu hóspede!
A virgem estremeceu por seus irmãos. A fama do bravo Poti, irmão de Jacaúna, subiu das
ribeiras do mar às alturas da serra; rara é a cabana onde já não rugiu contra ele o grito de
vingança, porque em quase todas o golpe de seu válido tacape deitou um guerreiro tabajara em
seu camucim.

31

Iracema cuidou que Poti vinha à frente de seus guerreiros para livrar o amigo. Era ele sem
dúvida que fizera retroar o búzio das praias, no momento do combate. Foi com um tom misturado
de doçura e tristeza que replicou:
— O estrangeiro está salvo; os irmãos de Iracema vão morrer, porque ela não falará.
— Saia essa tristeza de tua alma. O estrangeiro partindo-se de teus campos, virgem tabajara,
não deixará neles rastro de sangue, como o tigre esfaimado.
Iracema tomou a mão do guerreiro branco e beijou-a.
— Teu sorriso, continua ele, apagou a lembrança do mal que eles me querem.
Martim ergueu-se e marchou para a porta.
— Aonde vai o guerreiro branco?
— Adiante de Poti.
— O hóspede de Araquém não pode sair desta cabana, porque os guerreiros de Irapuã o
matarão.
— Um guerreiro só deve proteção a Deus e a suas armas. Não carece que o defendam os
velhos e as mulheres.
— Não vale um guerreiro só contra mil guerreiros; valente e forte é o tamanduá, que morde
os gatos selvagens por serem muitos e o acabam. Tuas armas só chegam até onde mede a sombra
de teu corpo; as armas deles voam alto e direito como o anajê.
— Todo o guerreiro tem seu dia.
— Não queres tu que morra Iracema, e queres que ela te deixe morrer!
Martim ficou perplexo:
— Iracema irá ao encontro do chefe pitiguara e trará a seu hóspede as falas do guerreiro
amigo.
O pajé saiu enfim de sua contemplação. O maracá rugiu-lhe na destra, tiniram os guizos com
o passo hirto e lento.
Chamou ele a filha de parte:
— Se os guerreiros de Irapuã vierem contra a cabana, levanta a pedra e esconde o estrangeiro
no seio da terra.
— O hóspede não deve ficar só; espera que volte Iracema. Ainda não cantou a inhuma.
Tornou a sentar-se na rede o velho. A virgem partiu, cerrando a porta da cabana.
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13

Avança a filha de Araquém nas trevas; pára e escuta.
O grito da gaivota terceira vez ressoa ao seu ouvido; ela vai direito ao lugar d’onde partiu;
chega à borda de um tanque; seu olhar investiga a escuridão, e nada vê do que busca.
A voz maviosa, débil como sussurro de colibri, ressoa no silêncio:
— Guerreiro Poti, teu irmão branco te chama pela boca de Iracema.
Só o eco respondeu-lhe.
— A filha de teus inimigos vem a ti porque o estrangeiro te ama, e ela ama o estrangeiro.
A lisa face do lago fendeu-se; e um vulto se mostra, que nada para a margem, e surge fora.
— Foi Martim quem te mandou, pois tu sabes o nome de Poti, seu irmão na guerra.
— Fala, chefe pitiguara; o guerreiro branco espera.
— Torna a ele e diz que Poti é chegado para o salvar.
— Ele sabe; e mandou-me a ti para ouvir.
— As falas de Poti sairão de sua boca para o ouvido de seu irmão branco.
— Espera então que Araquém parta e a cabana fique deserta; eu te guiarei à presença do
estrangeiro.
— Nunca, filha dos tabajaras, um guerreiro pitiguara passou a soleira da cabana inimiga, se
não foi como vencedor. Conduz aqui o guerreiro do mar.
— A vingança de Irapuã fareja em roda da cabana de Araquém. Trouxe o irmão do
estrangeiro bastantes guerreiros pitiguaras para o defender e salvar?
Poti refletiu:
— Conta, virgem das serras, o que sucedeu em teus campos depois que a eles chegou o
guerreiro do mar.
Iracema referiu como a cólera de Irapuã se havia assanhado contra o estrangeiro, até que a
voz de Tupã, chamado pelo pajé, tinha apaziguado seu furor:
— A raiva de Irapuã é como a andira: foge da luz e voa nas trevas.
A mão de Poti cerrou súbito os lábios da virgem; sua fala parecia um sopro:
— Suspende a voz e o respiro, virgem das florestas, o ouvido inimigo escuta na sombra.
As folhas crepitavam de manso, como se por elas passasse a fragueira nambu. Um rumor,
partido da orla da mata, vinha discorrendo pelo vale.
O valente Poti, resvalando pela relva, como o ligeiro camarão, de que ele tomara o nome e a
viveza, desapareceu no lago profundo. A água não soltou um murmúrio, e cerrou sobre ele sua
límpida onda.

34

Iracema voltou à cabana; em meio do caminho perceberam seus olhos as sombras de muitos
guerreiros que rojavam pelo chão como a intanha.
Araquém, vendo-a entrar, partiu.
A virgem tabajara contou a Martim o que ouvira de Poti; o guerreiro cristão ergueu-se de um
ímpeto para correr em defesa de seu irmão pitiguara. Cingiu-lhe o colo Iracema com os lindos
braços:
— O chefe não carece de ti; ele é filho das águas; as águas o protegem. Mais tarde o
estrangeiro ouvirá em seus ouvidos as falas amigas.
— Iracema, é tempo que teu hóspede deixe a cabana do pajé e os campos dos tabajaras. Ele
não tem medo dos guerreiros de Irapuã, tem medo dos olhos da virgem de Tupã.
— Eles fugirão de ti.
— Fuja deles o estrangeiro, como o oitibó da estrela da manhã. Martim promoveu o passo.
— Vai, guerreiro ingrato; vai matar teu irmão primeiro, depois a ti. Iracema te seguirá até aos
campos alegres aonde vão as sombras dos que morrem.
— Matar meu irmão, dizes tu, virgem cruel.
— Teu rastro guiará o inimigo aonde ele se oculta.
O cristão estacou em meio da cabana; e ali permaneceu mudo e quedo. Iracema, receosa de
fitá-lo, tinha os olhos na sombra do guerreiro, que a chama projetava na vetusta parede da cabana.
O cão felpudo, deitado no borralho, deu sinal de que se aproximava gente amiga. A porta
entretecida dos talos da carnaúba foi aberta por fora. Caubi entrou.
— O cauim perturbou o espírito dos guerreiros; eles vêm contra o estrangeiro.
A virgem ergueu-se de um ímpeto:
— Levanta a pedra que fecha a garganta de Tupã, para que ela esconda o estrangeiro.
O guerreiro tabajara, sopesando a laje enorme, emborcou-a no chão.
— Filho de Araquém, deita na porta da cabana, e mais nunca te levantes da terra, se um
guerreiro passar por cima de teu corpo.
Caubi obedeceu; a virgem cerrou a porta.
Decorreu breve trato. Ressoa perto o estrupido dos guerreiros; travam-se as vozes iradas de
Irapuã e Caubi.
— Eles vêm; mas Tupã salvará seu hóspede.
Nesse instante, como se o deus do trovão ouvisse as palavras de sua virgem, o antro, mudo
em princípio, retroou surdamente.
— Ouve! É a voz de Tupã.
Iracema cerra a mão do guerreiro, e o leva à borda do antro. Somem-se ambos nas entranhas
da terra.
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14

Os guerreiros tabajaras, excitados com as copiosas libações do espumante cauim, se inflamam
à voz de Irapuã que tantas vezes os guiou ao combate, quantas à vitória.
Aplaca o vinho a sede do corpo, mas acende outra sede maior na alma feroz. Rugem vingança
contra o estrangeiro audaz que, afrontando suas armas, ofende o deus de seus pais, e o chefe da
guerra, o primeiro varão tabajara.
Lá tripudiam de furor, e arremetem pelas sombras; a luz vermelha do ubiratã, que brilha ao
longe, os guia à cabana de Araquém. De espaço em espaço erguem-se do chão os que primeiro
vieram para vigiar o inimigo.
— O pajé está na floresta! murmuram eles.
— E o estrangeiro? pergunta Irapuã.
— Na cabana com Iracema.
O grande chefe lança terrível salto; já é chegado à porta da cabana, e com ele seus valentes
guerreiros.
O vulto de Caubi enche o vão da porta; suas armas guardam diante dele o espaço de um bote
do maracajá.
— Vis guerreiros são aqueles que atacam em bando como os caititus. O jaguar, senhor da
floresta, e o anajê, senhor das nuvens, combatem só o inimigo.
— Morda o pó a boca torpe que levanta a voz contra o mais valente guerreiro dos guerreiros
tabajaras.
Proferidas estas palavras, ergue o braço de Irapuã o rígido tacape, mas estaca no ar: as
entranhas da terra outra vez rugem, como rugiram, quando Araquém acordou a voz tremenda de
Tupã.
Levantam os guerreiros medonho alarido, e cercando seu chefe, o arrebatam ao funesto lugar
e à cólera de Tupã, contra eles concitado.
Caubi estende-se de novo na soleira da porta; seus olhos adormecem; mas seu ouvido vela no
sono.
A voz de Tupã emudeceu .
Iracema e o cristão, perdidos nas entranhas da terra, descem a gruta profunda. Súbito, uma
voz que vinha reboando pela crasta, encheu seus ouvidos:
— O guerreiro do mar escuta a fala de seu irmão?
— É Poti, o amigo de teu hóspede, disse o cristão para a virgem.
Iracema estremeceu:

37

— Ele fala pela boca de Tupã.
Martim respondeu enfim ao pitiguara.
— As falas de Poti entram n’alma de seu irmão.
— Nenhum outro ouvido escuta?
— Os da virgem que duas vezes em um sol defendeu a vida de teu irmão!
— A mulher é fraca, o tabajara traidor, e o irmão de Jacaúna prudente.
Iracema suspirou e pousou a cabeça no peito do mancebo:
— Senhor de Iracema, cerra seus ouvidos, para que ela não ouça.
Martim repeliu docemente a gentil fronte:
— Fale o chefe pitiguara; só o escutam ouvidos amigos e fiéis.
— Tu ordenas, Poti fala. Antes que o Sol se levante na serra, o guerreiro do mar deve partir
para as margens do ninho das garças; a estrela morta o guiará às alvas praias. Nenhum tabajara o
seguirá, porque a inúbia dos pitiguaras rugirá da banda da serra.
— Quantos guerreiros pitiguaras acompanham seu chefe valente?
— Nenhum; Poti veio só com suas armas. Quando os espíritos maus das florestas separaram o
guerreiro do mar de seu irmão, Poti veio em seguimento do rastro. Seu coração não deixou que
voltasse para chamar os guerreiros de sua taba; mas expediu seu cão fiel ao grande Jacaúna.
— O chefe pitiguara está só; não deve rugir a inúbia que chamará contra si todos os
guerreiros tabajaras.
— É preciso para salvar o irmão branco; Poti zombará de Irapuã, como zombou quando
combatiam cem contra ti.
A filha do pajé que ouvira calada, debruçou-se ao ouvido do cristão:
— Iracema quer te salvar e a teu irmão; ela tem seu pensamento. O chefe pitiguara é valente e
audaz; Irapuã é manhoso e traiçoeiro como a acauã. Antes que chegues à floresta, cairás; e teu
irmão da outra banda cairá contigo.
— Que fará a virgem tabajara para salvar o estrangeiro e seu irmão? perguntou Martim.
— Mais um sol e outro, e a lua das flores vai nascer. É o tempo da festa, em que os guerreiros
tabajaras passam a noite no bosque sagrado, e recebem do pajé os sonhos alegres. Quando
estiverem todos adormecidos, o guerreiro branco deixará os campos do Ipu, e os olhos de
Iracema, mas não sua alma.
Martim estreitou a virgem ao seio; mas logo a repeliu. O toque de seu corpo, doce como a
açucena da mata, e quente como o ninho do beija-flor, espinhou seu coração, porque lhe recordou
as palavras terríveis do pajé.
A voz do cristão transmitiu a Poti o pensamento de Iracema; o chefe pitiguara, prudente como
o tamanduá, pensou e respondeu:
— A sabedoria falou pela boca da virgem tabajara. Poti espera o nascimento da Lua.
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Nasceu o dia e expirou.
Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e silenciosas no
azul do céu, as estrelas, filhas da Lua, que esperam a volta de sua mãe ausente.
Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade oscila de um a
outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos afetos; aqui lhe sorri a virgem morena
dos ardentes amores.
Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos, ternos olhos de
sabiá, buscam o estrangeiro, e lhe entram n’alma. O cristão sorri; a virgem palpita; como o saí,
fascinado pela serpente, vai declinando o lascivo talhe, que se prostra sobre o peito do guerreiro.
Já o estrangeiro a preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera, para celebrar
nesse ádito d’alma, o himeneu do amor.
No recanto escuro o velho pajé, imerso em sua contemplação e alheio às cousas deste mundo,
soltou um gemido doloroso. Pressentira o coração o que não viram os olhos? Ou foi algum
funesto presságio para a raça de seus filhos, que assim ecoou n’alma de Araquém?
Ninguém o soube.
O cristão repeliu do seio a virgem indiana. Ele não deixará o rastro da desgraça na cabana
hospedeira. Cerra os olhos para não ver; e enche sua alma com o nome e a veneração do seu
Deus:
— Cristo!... Cristo!...
A serenidade volta ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu olhar pousa sobre
a virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma centelha de ardente chama. Assim, quando
a criança imprudente revolve o brasido de intenso fogo, saltam as faúlhas inflamadas que lhe
queimam o corpo.
Fecha os olhos o cristão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem da virgem, talvez
mais bela. Embalde chama ele o sono às pálpebras fatigadas; elas se abrem, malgrado seu.
Desce-lhe do céu ao atribulado pensamento uma inspiração:
— Virgem formosa do sertão, esta é a última noite que teu hóspede dorme na cabana de
Araquém, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu sono seja alegre e feliz.
— Manda; Iracema te obedece. Que pode ela para tua alegria?
O cristão falou submisso, para que não o ouvisse o velho pajé:
— A virgem de Tupã guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!
Um triste sorriso pungiu os lábios de Iracema:

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— O estrangeiro vai viver para sempre à cintura da virgem branca; nunca mais seus olhos
verão a filha de Araquém; e ele quer que o sono já feche suas pálpebras, e o sonho o leve à terra
de seus irmãos!
— O sono é o descanso do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d’alma. O estrangeiro
não quer levar consigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixá-la no coração de Iracema!
A virgem ficou imóvel.
— Vai, e torna com o vinho de Tupã.
Quando Iracema foi de volta, já o pajé não estava na cabana; tirou a virgem do seio o vaso
que ali trazia oculto sob a carioba de algodão entretecida de penas. Martim lho arrebatou das
mãos, e libou as poucas gotas do verde e amargo licor. Não tardou que a rede recebesse seu corpo
desfalecido.
Agora podia viver com Iracema, e colher em seus lábios o beijo, que ali viçava entre sorrisos,
como o fruto na corola da flor. Podia amá-la, e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar
veneno no seio da virgem.
O gozo era vida, pois o sentia mais vivo e intenso; o mal era sonho e ilusão, que da virgem
ele não possuía mais que a imagem.
Iracema se afastara opressa e suspirosa.
Abriram-se os braços do guerreiro e seus lábios; o nome da virgem ressoou docemente.
A juruti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voa
para conchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão, aninhou-se nos braços do
guerreiro.
Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio
do formoso cacto. Em seu lindo semblante acendia o pejo vivos rubores; e como entre os arrebóis
da manhã cintila o primeiro raio do Sol, em suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da
esposa, aurora de fruído amor.
Martim vendo a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava; cerrou os olhos
para torná-los a abrir.
A pocema dos guerreiros, troando pelo vale, o arrancou ao doce engano: sentiu que já não
sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou nos lábios da virgem o beijo que ali se espanejava.
— Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu deles sua alma. Na
vida, os lábios da virgem de Tupã, amargam e doem como o espinho da jurema.
A filha de Araquém escondeu no coração a sua alegria. Ficou tímida e inquieta, como a ave
que pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rápida, e partiu.
As águas do rio depuraram o corpo casto da recente esposa.
A jandaia não tornou à cabana.
Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.
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O alvo disco da Lua surgiu no horizonte.
A luz brilhante do Sol empalidece a virgem do céu, como o amor do guerreiro desmaia a face
da esposa.
— Jaci!... Mãe nossa!... exclamaram os guerreiros tabajaras.
E brandindo os arcos lançaram ao céu com a chuva das flechas o canto da lua nova:
“Veio no céu a mãe dos guerreiros; já volta o rosto para ver seus filhos. Ela traz as águas, que
enchem os rios e a polpa do caju.
“Já veio a esposa do Sol; já sorri as virgens da terra, filhas suas. A doce luz acende o amor no
coração dos guerreiros e fecunda o seio da jovem mãe.”
Cai a tarde.
Folgam as mulheres e os meninos na vasta ocara; os mancebos, que ainda não ganharam
nome de guerra por algum feito brilhante, discorrem no vale.
Os guerreiros seguem Irapuã ao bosque sagrado, onde os espera o pajé e sua filha para o
mistério da jurema. Iracema já acendeu os fogos da alegria. Araquém está imóvel e extático no
seio de uma nuvem de fumo.
Cada guerreiro que chega depõe a seus pés uma oferenda a Tupã. Traz um a suculenta caça;
outro a farinha d’água; aquele o saboroso piracém da traíra. O velho pajé, para quem são estas
dádivas, as recebe com desdém.
Quando foram todos sentados em torno do grande fogo, o ministro de Tupã ordena o silêncio
com um gesto, e três vezes clamando o nome terrível, enche-se do deus, que o habita:
— Tupã!... Tupã!... Tupã!...
Três vezes o eco ao longe repercutiu.
Vem Iracema com a igaçaba cheia do verde licor. Araquém decreta os sonhos a cada
guerreiro, e distribui o vinho da jurema, que transporta ao céu o valente tabajara.
Este, grande caçador, sonha que os veados e as pacas correm adiante de suas flechas para se
traspassarem nelas; fatigado por fim de ferir, cava na terra o bucã, e assa tamanha quantidade de
caça que mil guerreiros em um ano não acabaram.
Outro, fogoso em amores, sonha que as mais belas virgens dos tabajaras deixam a cabana de
seus pais e o seguem cativas de seu querer. Nunca a rede de chefe algum embalou mais
voluptuosas carícias, que ele as frui naquele êxtase.
O herói sonha tremendas lutas e horríveis combates, de que sai vencedor, cheio de glória e
fama. O velho renasce na prole numerosa, e como o seco tronco, donde rebenta nova e robusta
sebe, cobre-se ainda de flores.

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Todos sentem a felicidade tão viva e contínua, que no espaço da noite cuidam viver muitas
luas. As bocas murmuram; o gesto fala; e o pajé, que tudo escuta e vê, colhe o segredo das almas
desnudas.
Iracema, depois que ofereceu aos guerreiros o licor de Tupã, saiu do bosque. Não permitia o
rito que ela assistisse ao sono dos guerreiros e ouvisse falar os sonhos.
Foi dali direito à cabana onde a esperava Martim:
— Toma tuas armas, guerreiro branco. É tempo de partir.
— Leva-me aonde está Poti, meu irmão.
A virgem caminhou para o vale; o cristão a seguiu. Chegaram à falda do rochedo, que ia
morrer à beira do tanque, em um maciço de verdura.
— Chama teu irmão!
Martim soltou o grito da gaivota. A pedra que fechava a entrada da gruta caiu; e o vulto do
guerreiro Poti apareceu na sombra.
Os dois irmãos encostaram a fronte na fronte e o peito no peito, para exprimir que não tinham
ambos mais que uma cabeça e um coração.
— Poti está contente porque vê seu irmão, que o mau espírito da floresta arrebatou de seus
olhos.
— Feliz é o guerreiro que tem ao flanco um amigo como o bravo Poti; todos os guerreiros o
invejarão.
Iracema suspirou, pensando que a afeição do pitiguara bastava à felicidade do estrangeiro.
— Os guerreiros tabajaras dormem. A filha de Araquém vai guiar os estrangeiros.
A virgem seguiu adiante; os dois guerreiros após. Quando tinham andado o espaço que
transpõe a garça de um vôo, o chefe pitiguara tornou-se inquieto e murmurou ao ouvido do
cristão:
— Manda à filha do pajé que volte à cabana de seu pai. Ela demora a marcha dos guerreiros.
Martim entristeceu; mas a voz da prudência e da amizade penetrou em seu coração. Avançou
para Iracema, e tirou do seio uma voz doce para acalentar a saudade da virgem:
— Mais afunda a raiz da planta na terra, mais custa a arrancá-la. Cada passo de Iracema no
caminho da partida, é uma raiz que lança no coração de seu hóspede.
— Iracema quer te acompanhar até onde acabam os campos dos tabajaras, para voltar com o
sossego em seu peito.
Martim não respondeu. Continuaram a caminhar, e com eles caminhava a noite; as estrelas
desmaiaram; e a frescura da alvorada alegrou a floresta. As roupas da manhã, alvas como o
algodão, apareceram no céu.
Poti olhou a mata e parou. Martim compreendeu e disse a Iracema:
— Teu hóspede já não pisa os campos dos tabajaras. É o instante de separar-te dele.
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Iracema pousou a mão no peito do guerreiro branco:
— A filha dos tabajaras já deixou os campos de seus pais; agora pode falar.
— Que guardas tu em teu seio, virgem formosa do sertão?
Ela pôs os olhos cheios no cristão:
— Iracema não pode mais separar-se do estrangeiro.
— Assim é preciso, filha de Araquém. Torna à cabana de teu velho pai, que te espera.
— Araquém já não tem filha.
Martim tornou com um gesto rudo e severo:
— Um guerreiro da minha raça jamais deixou a cabana do hóspede viúva de sua alegria.
Araquém abraçará sua filha, para não amaldiçoar o estrangeiro ingrato.
A virgem pendeu a fronte; velando-se com as longas tranças negras que se espargiam pelo
colo, cruzando ao grêmio os lindos braços, recolheu em seu pudor. Assim o róseo cacto, que já
desabrochou em formosa flor, cerra em botão o seio perfumado.
— Tua escrava te acompanhará, guerreiro branco; porque teu sangue dorme em seu seio.
Martim estremeceu.
— Os maus espíritos da noite turbaram o espírito de Iracema.
— O guerreiro branco sonhava, quando Tupã abandonou sua virgem, porque ela traiu o
segredo da jurema.
O cristão escondeu as faces à luz.
— Deus!... clamou seu lábio trêmulo.
Permaneceram ambos mudos e quedos.
Afinal disse Poti:
— Os guerreiros tabajaras despertam.
O coração da virgem, como o do estrangeiro, ficou surdo à voz da prudência. O Sol levantouse
no horizonte; e seu olhar majestoso desceu dos montes à floresta. Poti de pé como um tronco
decepado esperou que seu irmão quisesse partir.
Foi Iracema quem primeiro falou:
— Vem; enquanto não pisares as praias dos pitiguaras, tua vida corre perigo.
Martim seguiu silencioso a virgem, que fugia entre as árvores como a selvagem cutia. A
tristeza lhe roía o coração; mas a onda de perfumes que deixava na brisa a passagem da formosa
tabajara açulava o amor no seio do guerreiro. Seu passo era tardo, o peito lhe ofegava.
Poti cismava. Em sua cabeça de mancebo morava o espírito de um abaeté. O chefe pitiguara
pensava que o amor é como o cauim, o qual bebido com moderação fortalece o guerreiro, e

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tomado em excesso abate a coragem do herói. Ele sabia quanto veloz era o pé do tabajara; e
esperava o momento de morrer defendendo o amigo.
Quando as sombras da tarde entristeciam o dia, o cristão parou no meio da mata. Poti acendeu
o fogo da hospitalidade. A virgem desdobrou a alva rede de algodão franjada de penas de tucano,
e suspendeu-a aos ramos da árvore.
— Esposo de Iracema, tua rede te espera.
A filha de Araquém foi sentar-se longe, na raiz de uma árvore, como a cerva solitária, que o
ingrato companheiro afugentou do aprisco. O guerreiro pitiguara desapareceu na espessura da
folhagem.
Martim ficou mudo e triste, semelhante ao tronco d’árvore a que o vento arrancou o lindo
cipó que o entrelaçava. A brisa, perpassando levou um murmúrio:
— Iracema!
Era o balido do companheiro; a cerva arrufando-se ganhou o doce aprisco.
A floresta destilava suave fragrância e exalava harmoniosos arpejos; os suspiros do coração
se difundiram nos múrmures do deserto. Foi a festa do amor, e o canto do himeneu.
Já a luz da manhã coou na selva densa. A voz grave e sonora de Poti repercutiu no sussurro
da mata:
— O povo tabajara caminha na floresta!
Iracema arrancou-se dos braços que a cingiam e mais do lábio que a tinha cativa: saltando da
rede como a rápida zabelê, travou das armas do esposo e levou-o através da mata.
De espaço a espaço, o prudente Poti escutava as entranhas da terra; sua cabeça movia-se
pesada de um a outro lado, como a nuvem que se balança no cocuruto do rochedo, aos vários
lufos da próxima borrasca.
— O que escuta o ouvido do guerreiro Poti?
— Escuta o passo veloz do povo tabajara. Ele vem como o tapir, rompendo a floresta.
— O guerreiro pitiguara é a ema que voa sobre a terra; nós o seguiremos, como suas asas,
disse Iracema.
O chefe sacudiu de novo a fronte:
— Enquanto o guerreiro do mar dormia, o inimigo correu. Os que primeiro partiram já
avançam além como as pontas do arco.
A vergonha mordeu o coração de Martim:
— Fuja o chefe Poti e salve Iracema. Só deve morrer o guerreiro mau, que não escutou a voz
de seu irmão e o pedido de sua esposa.
Martim arrepiou o passo.
— A alma do guerreiro branco não escutou sua boca. Poti e seu irmão só têm uma vida.
O lábio de Iracema não falou; sorriu.
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Treme a selva com o estrupido da carreira do povo tabajara.
O grande Irapuã, primeiro, assoma entre as árvores. Seu olhar rúbido viu o guerreiro branco
entre nuvens de sangue; o grito rouco do tigre rompe de seu peito cavernoso.
O chefe tabajara e seu povo vão se precipitar sobre os fugitivos, como a vaga encapelada que
arrebenta no Mocoribe.
Eis late o cão selvagem.
Poti solta o grito da alegria:
— O cão de Poti guia os guerreiros de sua taba em socorro teu.
O rouco búzio dos pitiguaras estruge pela floresta. O grande Jacaúna, senhor das praias do
mar, chegava do rio das garças com seus melhores guerreiros.
Os pitiguaras recebem o primeiro ímpeto do inimigo nas pontas eriçadas de suas flechas, que
eles despedem do arco aos molhos, como o cuandu os espinhos do seu corpo. Logo após soa a
pocema, estreita-se o espaço, e a luta se trava face a face.
Jacaúna atacou Irapuã. Prossegue o horrível combate que bastara a dez bravos, e não esgotou
ainda a força dos grandes chefes. Quando os dois tacapes se encontram, a batalha toda estremece
como um só guerreiro até as entranhas.
O irmão de Iracema veio direito ao estrangeiro, que arrancara a filha de Araquém à cabana
hospedeira; o faro da vingança o guia; a vista da irmã assanha a raiva em seu peito. O guerreiro
Caubi assalta com furor o inimigo.
Iracema, unida ao flanco de seu guerreiro e esposo, viu de longe Caubi e falou assim:
— Senhor de Iracema, ouve o rogo de tua escrava; não derrama o sangue do filho de
Araquém. Se o guerreiro Caubi tem de morrer, morra ele por esta mão, não pela tua.
Martim pôs no rosto da virgem olhos de horror:
— Iracema matará seu irmão?
— Iracema antes quer que o sangue de Caubi tinja sua mão que a tua; porque os olhos de
Iracema vêem a ti, e a ela não.
Travam a luta os guerreiros. Caubi combate com furor; o cristão defende-se apenas; mas a
seta embebida no arco da esposa guarda a vida do guerreiro contra os botes do inimigo.
Poti já prostrou o velho Andira e quantos guerreiros topou na luta seu válido tacape. Martim
lhe abandona o filho de Araquém, e corre sobre Irapuã:
— Jacaúna é um grande chefe, seu colar de guerra dá três voltas ao peito. O tabajara pertence
ao guerreiro branco.
— A vingança é a honra do guerreiro, e Jacaúna ama o amigo de Poti.

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O grande chefe pitiguara levou além o formidável tacape. O combate renhiu-se entre Irapuã e
Martim. A espada do cristão, batendo na clava do selvagem, fez-se em pedaços. O chefe tabajara
avançou contra o peito inerme do adversário.
Iracema silvou como a boicininga, e se arremessou ante a fúria do guerreiro tabajara. A arma
rígida tremeu na destra possante e o braço caiu desfalecido.
Soava a pocema da vitória. Os guerreiros pitiguaras conduzidos por Jacaúna e Poti varriam a
floresta. Os tabajaras, fugindo, arrebataram seu chefe ao ódio da filha de Araquém que o podia
abater, como a jandaia abate o prócero coqueiro roendo-lhe o cerne.
Os olhos de Iracema, estendidos pela floresta, viram o chão juncado de cadáveres de seus
irmãos; e longe o bando dos guerreiros tabajaras que fugia em nuvem negra de pó. Aquele sangue
que enrubescia a terra era o mesmo sangue brioso que lhe ardia nas faces de vergonha.
O pranto orvalhou seu lindo semblante.
Martim afastou-se para não envergonhar a tristeza de Iracema. Deixou que sua dor nua se
banhasse nas lágrimas.

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Poti voltou de perseguir o inimigo. Seus olhos se encheram de alegria, vendo salvo o
guerreiro branco.
O cão fiel o seguia de perto, lambendo ainda nos pêlos do focinho a marugem do sangue
tabajara, de que se fartara; o senhor o acariciava satisfeito de sua coragem e dedicação. Fora ele
quem salvara Martim, ali trazendo com tanta diligência os guerreiros de Jacaúna.
— Os maus espíritos da floresta podem separar outra vez o guerreiro branco de seu irmão
pitiguara. O cão te seguirá daqui em diante, para que mesmo de longe Poti acuda a teu chamado.
— Mas o cão é teu companheiro e amigo fiel.
— Mais amigo e companheiro será de Poti, servindo a seu irmão que a ele. Tu o chamarás
Japi; e ele será o pé ligeiro com que de longe corramos um para o outro.
Jacaúna deu o sinal da partida.
Os guerreiros pitiguaras caminharam para as margens alegres do rio onde bebem as garças:
ali se erguia a grande taba dos senhores das várzeas.
O Sol deitou-se e de novo se levantou no céu. Os guerreiros chegaram aonde a serra quebrava
para o sertão; já tinham passado aquela parte da montanha que, por ser despida de arvoredo e
tosquiada como a capivara, a gente de Tupã chamava Ibiapina.
Poti levou o cristão aonde crescia um frondoso jatobá, que afrontava as árvores do mais alto
píncaro da serrania, e quando batido pela rajada, parecia varrer o céu com a imensa copa.
— Neste lugar nasceu teu irmão, disse o pitiguara.
Martim estreitou o peito ao tronco enorme:
— Jatobá, que viste nascer meu irmão Poti, o estrangeiro te abraça.
— O raio te decepe, árvore do guerreiro Poti, quando seu irmão o abandonar.
Depois o chefe assim falou:
— Ainda Jacaúna não era um guerreiro, Jatobá, o maior chefe, conduzia os pitiguaras à
vitória. Logo que as grandes águas correram, ele caminhou para a serra. Aqui chegando, mandou
levantar a taba, para estar perto do inimigo e vencê-lo mais vezes. A mesma Lua que o viu
chegar, alumiou a rede onde Saí, sua esposa, lhe deu mais um guerreiro de seu sangue. O luar
passava por entre as folhas do jatobá; e o sorriso pelos lábios do varão possante, que tomara seu
nome e robustez.
Iracema aproximou-se.
A rola, que marisca na areia, se afasta-se o companheiro, adeja inquieta de ramo em ramo e
arrulha para que lhe responda o ausente amigo. Assim a filha das florestas errara pela encosta,
modulando o singelo canto mavioso.

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Martim a recebeu com a alma no semblante; e levando a esposa do lado do coração e o amigo
do lado da força, voltou ao rancho dos pitiguaras.

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20

A Lua cresceu.
Três sóis havia que Martim e Iracema estavam nas terras dos pitiguaras, senhores das
margens do Camucim e Acaraú. Os estrangeiros tinham sua rede na vasta cabana do grande
Jacaúna. O valente chefe guardou para si a alegria de hospedar o guerreiro branco.
Poti abandonou sua taba para acompanhar seu irmão de guerra na cabana de seu irmão de
sangue, e gozar dos instantes que sobejavam do amor de Iracema para a amizade, no coração do
guerreiro do mar.
A sombra já se retirou da face da terra: e Martim viu que ela não se retirara ainda da face da
esposa, desde o dia do combate.
— A tristeza mora na alma de Iracema!
— A alegria para a esposa só vem de ti; quando teus olhos a deixam, as lágrimas enchem os
seus.
— Por que chora a filha dos tabajaras?
— Esta é a taba dos pitiguaras, inimigos de meu povo. A vista de Iracema já conheceu o
crânio de seus irmãos espetado na caiçara; o ouvido já escutou o canto de morte dos cativos
tabajaras; a mão já tocou as armas tintas do sangue de seus pais.
A esposa pousou as duas mãos nos ombros do guerreiro, e reclinou ao peito dele:
— Iracema tudo sofre por seu guerreiro e senhor. A ata é doce e saborosa; quando a
machucam, azeda. Tua esposa não quer que seu amor azede teu coração; mas que te encha das
doçuras do mel.
— Volte o sossego ao seio da filha dos tabajaras; ela vai deixar a taba dos inimigos de seu
povo.
O cristão caminhou para a cabana de Jacaúna. O grande chefe alegrou-se vendo chegar seu
hóspede; mas a alegria fugiu logo de sua fronte guerreira. Martim dissera:
— O guerreiro branco parte de tua cabana, grande chefe.
— Alguma cousa te faltou na taba de Jacaúna?
— Nada faltou a teu hóspede. Ele era feliz aqui; mas a voz do coração o chama a outros
sítios.
— Então parte, e leva o que é preciso para a viagem. Tupã te fortaleça, e traga outra vez à
cabana de Jacaúna, para que ele festeje tua boa-vinda.
Poti chegou; sabendo que o guerreiro do mar ia partir, falou:
— Teu irmão te acompanha.
— Os guerreiros de Poti precisam de seu chefe.

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— Se tu não queres que eles vão com Poti, Jacaúna os conduzirá à vitória.
— A cabana de Poti ficará deserta e triste.
— Deserto e triste será o coração de teu irmão longe de ti.
O guerreiro do mar deixou as margens do rio das garças, e caminhou para as terras onde o Sol
se deita. A esposa e o amigo seguem sua marcha.
Passam além da fértil montanha, onde a abundância dos frutos criava grande quantidade de
mosca, de que lhe veio o nome de Meruoca.
Atravessam os córregos que levam suas águas ao rio das garças, e avistam longe no horizonte
uma alta serrania. Expira o dia; nuvem negra voa das bandas do mar: são os urubus que pastam
nas praias a carniça que o oceano arroja, e com a noite tornam ao ninho.
Os viajantes dormem em Uruburetama. Quando o Sol voltou, chegaram às margens do rio,
que nasce da quebrada da serra e desce a planície enroscando-se como uma cobra. Suas voltas
contínuas enganam a cada passo o peregrino, que vai seguindo o tortuoso curso; por isso foi
chamado Mundaú.
Perlongando as frescas margens, viu Martim no seguinte sol os verdes mares e as alvas praias
onde as ondas murmurosas às vezes soluçam e outras raivam de fúria, rebentando em frocos de
espuma.
Os olhos do guerreiro branco se dilataram pela vasta imensidade; seu peito suspirou. Esse mar
beijava também as brancas areias do Potengi, seu berço natal, onde ele vira a luz americana.
Arrojou-se nas ondas e pensou banhar seu corpo nas águas da pátria, como banhara sua alma nas
saudades dela.
Iracema sentiu chorar-lhe o coração; mas não tardou que o sorriso de seu guerreiro o
acalentasse.
Entretanto Poti, do alto do coqueiro, flechava o saboroso camorupim que brincava na pequena
baía do Mundaú; e preparava o moquém para a refeição.
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21

Já descia o Sol das alturas do céu.
Chegam os viajantes à foz do rio onde se criam em grande abundância as saborosas traíras;
suas praias são povoadas pela tribo dos pescadores, da grande nação dos pitiguaras.
Eles receberam os estrangeiros com a hospitalidade generosa, que era uma lei de sua religião;
e Poti com o respeito que merecia tão grande guerreiro, irmão de Jacaúna, maior chefe da forte
gente pitiguara.
Para repousar os viajantes, e acompanhá-los na despedida, o chefe da tribo recebeu Martim,
Iracema e Poti na jangada, e abrindo a vela a brisa, levou-os até muito longe da costa.
Todos os pescadores em suas jangadas seguiam o chefe e atroavam os ares com o canto de
saudade, e os múrmuros do uraçá, que imita os soluços do vento.
Além da tribo dos pescadores estava mais entrada para as serras a tribo dos caçadores. Eles
ocupavam as margens do Soipé, cobertas de matas, onde os veados, as gordas pacas e os macios
jacus abundavam. Assim os habitadores dessas margens lhes deram o nome de país da caça.
O chefe dos caçadores, Jaguaraçu, tinha sua cabana à beira do lago que forma o rio perto do
mar. Aí acharam os viajantes o mesmo agasalho que haviam recebido dos pescadores.
Depois que partiram do Soipé, os viajantes atravessaram o rio Pacoti, em cujas margens
cresciam as frondosas bananeiras balançando os verdes penachos; mais longe o Iguape, onde a
água faz cintura em torno dos cômoros de areia.
Além assomou no horizonte um alto morro de areia que tinha a alvura da espuma do mar. O
cabo sobranceiro aos coqueiros parece a cabeça calva do condor, esperando ali a borrasca, que
vem dos confins do oceano.
— Poti conhece o grande morro das areias? perguntou o cristão.
— Poti conhece toda a terra que tem os pitiguaras, desde as margens do grande rio, que forma
um braço do mar, até à margem do rio onde habita o jaguar. Ele já esteve no alto do Mocoribe; e
de lá viu correr no mar as grandes igaras dos guerreiros brancos, teus inimigos, que estão no
Mearim.
— Por que chamas tu Mocoribe ao grande morro das areias?
— O pescador da praia, que vai na jangada, lá onde voa a ati, fica triste, longe da terra e de
sua cabana, onde dormem os filhos de seu sangue. Quando ele volta e que seus olhos primeiro
avistam o morro das areias, a alegria volta ao seio do homem. Então ele diz que o morro das
areias dá alegria!
— O pescador diz bem; porque teu irmão ficou contente como ele, vendo o monte das areias.

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Martim subiu com Poti ao cimo do Mocoribe. Iracema, seguindo com os olhos o esposo,
divagava como a jaçanã em torno do lindo seio, que ali fez a terra para receber o mar.
De passagem ela colhia os doces cajus, que aplacam a sede aos guerreiros, e apanhava as
mimosas conchas para ornar seu colo.
Os viajantes estiveram em Mocoribe três sóis. Depois Martim levou seus passos além. A
esposa e o amigo o seguiram até a embocadura de um rio cujas margens eram alagadas e cobertas
de mangue. O mar entrando por ele formava uma bacia de água cristalina, que parecia cavada na
pedra como um camucim.
O guerreiro cristão ao percorrer essa paragem, começou de cismar. Até ali ele caminhava sem
destino, movendo seus passos ao acaso; não tinha outra intenção mais que afastar-se das tabas
dos pitiguaras para arrancar a tristeza do coração de Iracema. O cristão sabia por experiência que
a viagem acalenta a saudade, porque a alma pára enquanto o corpo se move. Agora sentado na
praia, pensava.
Poti veio:
— O guerreiro branco pensa; o seio do irmão está aberto para receber seu pensamento.
— Teu irmão pensa que este lugar é melhor do que as margens do Jaguaribe para a taba dos
guerreiros de sua raça. Nestas águas as grandes igaras que vêm de longes terras se esconderiam
do vento e do mar; daqui elas iriam ao Mearim destruir os brancos tapuias, aliados dos tabajaras,
inimigos de tua nação.
O chefe pitiguara meditou e respondeu:
— Vai buscar teus guerreiros. Poti plantará sua taba junto da mairi de seu irmão.
Aproximava-se Iracema. O cristão mandou com um gesto o silêncio ao chefe pitiguara.
— A voz do esposo se cala, e seus olhos se baixam, quando chega Iracema. Queres tu que ela
se afaste?
— Quer teu esposo que chegues mais perto, para que sua voz e seus olhos penetrem mais
dentro de tua alma.
A formosa selvagem desfez-se em risos, como se desfaz a flor do fruto que desponta, e foi
debruçar-se na espádua do guerreiro.
— Iracema te escuta.
— Estes campos são alegres, e mais serão quando Iracema neles habitar. Que diz teu coração?
— O coração da esposa está sempre alegre junto de seu senhor e guerreiro.
O cristão, seguindo pela margem do rio, escolheu um lugar para levantar a cabana. Poti
cortou esteios dos troncos da carnaúba; a filha de Araquém ligava os leques da palmeira para
vestir o teto e as paredes; Martim cavou a terra com a espada e fabricou a porta das fasquias da
taquara.
Quando veio a noite, os dois esposos armaram a rede em sua nova cabana; e o amigo no
copiar que olhava para o nascente.
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Poti saudou o amigo e falou assim:
— “Antes que o pai de Jacaúna e Poti, o valente guerreiro Jatobá, mandasse sobre todos os
guerreiros pitiguaras, o grande tacape da nação estava na destra de Batuireté, o maior chefe, pai
de Jatobá. Foi ele que veio pelas praias do mar até o rio do jaguar, e expulsou os tabajaras para
dentro das terras, marcando a cada tribo seu lugar; depois entrou pelo sertão até a serra que
tomou seu nome.
“Quando suas estrelas eram muitas, e tantas que seu camucim já não cabia as castanhas que
marcavam o número, o corpo vergou para a terra, o braço endureceu como o galho do ubiratã que
não verga, seus olhos se escureceram.
“Chamou então o guerreiro Jatobá e disse: — Filho, toma o tacape da nação pitiguara. Tupã
não quer que Batuireté o leve mais à guerra, pois tirou a força de seu corpo, o movimento do seu
braço e a luz de seus olhos. Mas Tupã foi bom para ele, pois lhe deu um filho como o guerreiro
Jatobá.
“Jatobá empunhou o tacape dos pitiguaras. Batuireté tomou o bordão de sua velhice e
caminhou. Foi atravessando os vastos sertões, até os campos viçosos onde correm as águas que
vêm das bandas da noite. Quando o velho guerreiro arrastava o passo pelas margens, e a sombra
de seus olhos não lhe deixava que visse mais os frutos nas árvores ou os pássaros no ar, ele dizia
em sua tristeza: — Ah! meus tempos passados!
“A gente que o ouvia chorava a ruína do grande chefe; e desde então passando por aqueles
lugares repetia suas palavras; donde veio chamar-se o rio e os campos, Quixeramobim.
“Batuireté veio pelo caminho das garças até aquela serra que tu vês longe, onde primeiro
habitou. Lá no píncaro o velho guerreiro fez seu ninho alto como o gavião, para encher o resto de
seus dias, conversando com Tupã. Seu filho já dorme embaixo da terra, e ele ainda na outra lua
cismava na porta de sua cabana, esperando a noite que traz o grande sono. Todos os chefes
pitiguaras, quando acordam à voz da guerra, vão pedir ao velho que lhes ensine a vencer, porque
nenhum outro guerreiro jamais soube como ele combater. Assim as tribos não o chamam mais
pelo nome, senão o grande sabedor da guerra, Maranguab.
“O chefe Poti vai à serra ver seu grande avô; mas antes que o dia morra, ele estará de volta na
cabana de seu irmão. Tens tu outra vontade?”
— O guerreiro branco te acompanha. Ele quer abraçar o grande chefe dos pitiguaras, avô de
seu irmão, e dizer ao velho que renasce em seu neto.

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Martim chamou Iracema; e partiram ambos guiados pelo pitiguara para a serra do Maranguab,
que se levantava no horizonte. Foram seguindo o curso do rio até onde nele entrava o ribeiro de
Pirapora.
A cabana do velho guerreiro estava junto das formosas cascatas, onde salta o peixe no meio
dos borbotões de espuma. As águas ali são frescas e macias, como a brisa do mar, que passa entre
as palmas dos coqueiros, nas horas da calma.
Batuireté estava sentado sobre uma das lapas da cascata; e o sol ardente caía sobre sua cabeça
nua de cabelos e cheia de rugas como o jenipapo. Assim dorme o jaburu na borda do lago.
— Poti é chegado à cabana do grande Maranguab, pai de Jatobá, e trouxe seu irmão branco
para ver o maior guerreiro das nações.
O velho soabriu as pesadas pálpebras, e passou do neto ao estrangeiro um olhar baço. Depois
o peito arquejou e os lábios murmuraram:
— Tupã quis que estes olhos vissem antes de se apagarem o gavião branco junto da narceja.
O abaeté derrubou a fronte aos peitos, e não falou mais, nem mais se moveu.
Poti e Martim julgaram que ele dormia e se afastaram com respeito para não perturbar o
repouso de quem tanto obrara na longa vida. Iracema, que se banhava na próxima cachoeira,
veio-lhes ao encontro, trazendo na folha da taioba favos de mel puríssimo.
Discorreram os amigos pelas floridas encostas até que as sombras da montanha se estenderam
pelo vale. Tornaram então ao lugar onde tinham deixado o Maranguab.
O velho ainda lá estava na mesma atitude, com a cabeça derrubada ao peito e os joelhos
encostados à fronte. As formigas subiam pelo seu corpo; e os tuins adejavam em torno e
pousavam-lhe na calva.
Poti pôs a mão no crânio do velho e conheceu que era finado; morrera de velhice. Então o
chefe pitiguara entoou o canto da morte; e depois foi à cabana buscar o camucim, que
transbordava com as castanhas do caju. Martim contou cinco vezes cinco mãos.
Entretanto Iracema colhia na floresta a andiroba, de que foi ungido o corpo do velho no
camucim, onde a mão piedosa do neto o encerrou. O vaso fúnebre ficou suspenso ao teto da
cabana.
Depois que plantou urtiga em frente à porta, para defender contra os animais a oca
abandonada, Poti despediu-se triste daqueles lugares, e tornou com seus companheiros à borda do
mar.
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Quatro luas tinham alumiado o céu depois que Iracema deixara os campos do Ipu; e três
depois que ela habitava nas praias do mar a cabana de seu esposo.
A alegria morava em sua alma. A filha dos sertões era feliz, como a andorinha que abandona
o ninho de seus pais e emigra para fabricar novo ninho no país onde começa a estação das flores.
Também Iracema achara nas praias do mar um ninho do amor, nova pátria para o coração.
Ela discorria as amenas campinas, como o colibri borboleteando entre as flores da acácia. A
luz da manhã já a encontrava suspensa ao ombro do esposo e sorrindo, como a enrediça, que
entrelaça o tronco e todas as manhãs o coroa de nova grinalda.
Martim partia para a caça com Poti. Ela separava-se então dele, para mais sentir o desejo de
tornar a ele.
Perto havia uma formosa lagoa no meio da verde campina. Para lá volvia a selvagem o ligeiro
passo. Era a hora do banho da manhã; atirava-se à água, e nadava com as garças brancas e as
vermelhas jaçanãs.
Os guerreiros pitiguaras, que apareciam por aquelas paragens, chamavam a essa lagoa da
beleza, porque nela se banhava Iracema, a mais bela filha da raça de Tupã.
E desde esse tempo as mães vinham de longe mergulhar suas filhas nas águas da Porangaba,
que tinham a virtude de tornar as virgens formosas e amadas pelos guerreiros.
Depois do banho, Iracema discorria até as faldas da serra do Maranguab, onde nascia o ribeiro
das marrecas. Ali cresciam na frescura e sombra as frutas mais saborosas de todo o país; delas
fazia copiosa provisão, e esperava se embalando nas ramas do maracujá, que Martim tornasse da
caça.
Outras vezes não era a Jereraú que a levava sua vontade, mas do oposto lado, junto da lagoa
da Sapiranga, cujas águas diziam que inflamavam os olhos. À cerca daí havia um bosque
frondoso de muritis, que formavam no meio do tabuleiro uma grande ilha de formosas palmeiras.
Iracema gostava do muritiapuá, onde o vento suspirava docemente; ali espolpava ela o
vermelho coco, para fabricar a bebida refrigerante, adoçada com o mel da abelha, que os
guerreiros amavam durante a maior calma do dia.
Uma manhã Poti guiou Martim à caça. Caminharam para uma serra, que se levanta ao lado da
outra do Maranguab, sua irmã. O alto cabeço se curva à semelhança do bico adunco da arara;
pelo que os guerreiros a chamaram Aratanha. Eles subiram pela encosta da Guaiúba por onde as
águas descem para o vale, e foram até o córrego habitado pelas pacas.
Só havia sol no bico da arara quando os caçadores desceram de Pacatuba ao tabuleiro. De
longe viram Iracema, que viera esperá-los à margem de sua lagoa da Porangaba. Caminhava para

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eles com o passo altivo da garça que passeia à beira d’água: por cima da carioba trazia uma
cintura das flores da maniva, que era o símbolo da fecundidade. Colar das mesmas cingia-lhe o
colo e ornava os rijos seios palpitantes.
Travou da mão do esposo, e a impôs no regaço:
— Teu sangue já vive no seio de Iracema. Ela será mãe de teu filho!
— Filho, dizes tu! — exclamou o cristão em júbilo.
Ajoelhou ali e, cingindo-a com os braços, beijou o ventre fecundo da esposa.
Quando ergueu-se, Poti falou:
“A felicidade do mancebo é a esposa e o amigo; a primeira dá alegria; o segundo dá força: o
guerreiro sem a esposa é como a árvore sem folhas nem flores; nunca ela verá o fruto. O
guerreiro sem amigo é como a árvore solitária no meio do campo que o vento embalança: o fruto
dela nunca amadura. A felicidade do varão é a prole, que nasce dele e faz seu orgulho; cada
guerreiro que sai de suas veias é mais um galho que leva seu nome às nuvens, como a grimpa do
cedro. Amado de Tupã é o guerreiro que tem uma esposa, um amigo e muitos filhos; ele nada
mais deseja senão a morte gloriosa.”
Martim uniu o peito ao peito de Poti:
— O coração do esposo e do amigo falou por tua boca. O guerreiro branco é feliz, chefe dos
pitiguaras, senhores das praias do mar; e a felicidade nasceu para ele na terra das palmeiras, onde
recende a baunilha, e foi gerada do sangue de tua raça, que tem no rosto a cor do sol. O guerreiro
branco não quer mais outra pátria, senão a pátria de seu filho e de seu coração.
Ao romper d’alva Poti partiu para colher as sementes de crajuru que dão a mais bela tinta
vermelha, e a casca do angico de onde sai a cor negra mais lustrosa. De caminho sua flecha
certeira abateu o pato selvagem que plainava nos ares: e ele arrancou das asas as longas penas.
Subindo ao Mocoribe, rugiu a inúbia. A refega que vinha do mar levou longe o rouco som. O
búzio dos pescadores do Trairi e a trombeta dos caçadores do Soipé responderam.
Martim banhou-se n’água do rio, e passeou na praia para secar o corpo ao vento e ao sol. Ao
seu lado ia Iracema, que apanhava o âmbar amarelo, que o mar arrojava. Todas as noites a esposa
perfumava seu corpo e a alva rede, para que o amor do guerreiro se deleitasse nela.
Voltou Poti.
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Foi costume da raça, filha de Tupã, que o guerreiro trouxesse no corpo as cores de sua nação.
Traçavam em princípio negras riscas sobre o corpo, à semelhança do pêlo do coati, de onde
procedeu o nome dessa arte da pintura guerreira. Depois variaram as cores, e muitos guerreiros
costumavam escrever os emblemas de seus feitos.
O estrangeiro, tendo adotado a pátria da esposa e do amigo, devia passar por aquela
cerimônia, para tornar-se um guerreiro vermelho, filho de Tupã. Nessa intenção fora Poti se
prover dos objetos necessários.
Iracema preparou as tintas. O chefe, embebendo as ramas da pluma, traçou pelo corpo os
riscos vermelhos e pretos, que ornavam a grande nação pitiguara. Depois pintou na fronte uma
flecha e disse:
— Assim como a seta traspassa o duro tronco, assim o olhar do guerreiro penetra n’alma dos
povos.
No braço um gavião.
— Assim como o anajê cai das nuvens, assim cai o braço do guerreiro sobre o inimigo.
No pé esquerdo a raiz do coqueiro.
— Assim como a pequena raiz agarra na terra o alto coqueiro, o pé firme do guerreiro
sustenta seu corpo.
No pé direito pintou uma asa:
— Assim como a asa do majoí rompe os ares, o pé veloz do guerreiro não tem igual na
corrida.
Iracema tomou a rama da pena e pintou uma folha com uma abelha sobre: sua voz ressoou
entre sorrisos:
— Assim como a abelha fabrica mel no coração negro do jacarandá, a doçura está no peito do
mais valente guerreiro.
Martim abriu os braços e os lábios para receber corpo e alma da esposa.
— Meu irmão é um grande guerreiro da nação pitiguara; ele precisa de um nome na língua de
sua nação.
— O nome de teu irmão está em seu corpo, onde o pôs tua mão.
— Coatiabo! exclamou Iracema.
— Tu disseste; eu sou o guerreiro pintado; o guerreiro da esposa e do amigo.
Poti deu a seu irmão o arco e o tacape, que são as armas nobres do guerreiro. Iracema havia
tecido para ele o cocar e a araçóia, ornatos dos chefes ilustres.

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A filha de Araquém foi buscar à cabana as iguarias do festim e os vinhos de jenipapo e
mandioca. Os guerreiros beberam copiosamente e trançaram as danças alegres. Durante que
volviam em torno dos fogos da alegria, ressoavam as canções.
Poti cantava:
— Como a cobra que tem duas cabeças em um só corpo, assim é a amizade de Coatiabo e
Poti.
Acudiu Iracema:
— Como a ostra que não deixa o rochedo, ainda depois de morta, assim é Iracema junto a seu
esposo.
Os guerreiros disseram:
— Como o jatobá na floresta, assim é o guerreiro Coatiabo entre o irmão e a esposa: seus
ramos abraçam os ramos do ubiratã, e sua sombra protege a relva humilde.
Os fogos da alegria arderam até que veio a manhã; e com eles durou o festim dos guerreiros.

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A alegria ainda morou na cabana, todo o tempo que as espigas de milho levaram a
amarelecer.
Uma alvorada, caminhava o cristão pela borda do mar. Sua alma estava cansada.
O colibri sacia-se de mel e perfume; depois adormece em seu branco ninho de cotão, até que
volta no outro ano a lua das flores. Como o colibri, a alma do guerreiro também satura-se de
felicidade, e carece de sono e repouso.
A caça e as excursões pelas montanhas em companhia do amigo, as carícias da terna esposa
que o esperavam na volta, o doce carbeto no copiar da cabana, já não acordavam nele as emoções
de outrora. Seu coração ressonava.
Iracema brincava pela praia: os olhos dele retiravam-se dela para se estenderem pela
imensidade dos mares.
Viram umas asas brancas, que adejavam pelos campos azuis. Conheceu o cristão que era uma
grande igara de muitas velas, como construíam seus irmãos; e a saudade da pátria apertou em seu
seio.
Alto ia o Sol; e o guerreiro na praia seguia com os olhos as asas brancas que fugiam. Debalde
a esposa o chamou à cabana, debalde ofereceu a seus olhos, as graças dela e os frutos melhores
do campo. Não se moveu o guerreiro, senão quando a vela sumiu-se no horizonte.
Poti voltou da serra, onde pela vez primeira fora só. Tinha deixado a serenidade na fronte de
seu irmão e achava ali a tristeza. Martim saiu-lhe ao encontro:
— A igara grande do branco tapuia passou no mar. Os olhos de teu irmão a viram voar para
as margens do Mearim, onde estão os aliados dos tupinambás, inimigos de tua e minha raça.
— Poti é senhor de mil arcos; se é teu desejo, ele te acompanhará com seus guerreiros às
margens do Mearim para vencer o tapuitinga e seu amigo, o traidor tupinambá.
— Quando for tempo teu irmão te dirá.
Os guerreiros entraram na cabana, onde estava Iracema. A maviosa canção nesse dia tinha
emudecido nos lábios da esposa. Ela tecia suspirando a franja da rede materna, mais larga e
espessa que a rede do himeneu.
Poti, que a viu tão ocupada, falou:
— Quando a sabiá canta é o tempo do amor; quando emudece, fabrica o ninho para sua prole;
é o tempo do trabalho.
— Meu irmão fala como a rã quando anuncia a chuva; mas a sabiá que faz seu ninho, não
sabe se dormirá nele.

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A voz de Iracema gemia. Seu olhar buscou o esposo. Martim pensava: as palavras de Iracema
passaram por ele, como a brisa pela face lisa da rocha, sem eco nem rumores.
O Sol brilhava sempre sobre as praias do mar, e as areias refletiam os raios ardentes; mas nem
a luz que vinha do céu, nem a luz que ia da terra espancaram a sombra n’alma do cristão. Cada
vez o crepúsculo era maior em sua fronte.
Chegou das margens do Acarú um guerreiro pitiguara, mandado por Jacaúna a seu irmão Poti.
Ele veio seguindo o rastro dos viajantes até o Trairi, onde os pescadores o guiaram à cabana.
Poti estava só no copiar; ergueu-se e abaixou a fronte para escutar com respeito e gravidade
as palavras que lhe mandava seu irmão pela boca do mensageiro:
— O tapuitinga, que estava no Mearim, veio pelas matas até o princípio da Ibiapaba, onde fez
aliança com Irapuã, para combater a nação pitiguara. Eles vão descer da serra às margens do rio
em que bebem as garças, e onde tu levantaste a taba de teus guerreiros. Jacaúna te chama para
defender os campos de nossos pais: teu povo carece de seu maior guerreiro.
— Volta às margens do Acaraú, e teu pé não descanse enquanto não pisar o chão da cabana
de Jacaúna. Quando aí estiveres, dize ao grande chefe: — “Teu irmão é chegado à taba de seus
guerreiros.” — E tu não mentirás.
O mensageiro partiu.
Poti vestiu suas armas e caminhou para a várzea, guiado pelo passo de Coatiabo. Ele o
encontrou muito além, vagando entre os canaviais que bordam as margens de Jacareí.
— O branco tapuia está na Ibiapaba para ajudar os tabajaras a combater contra Jacaúna. Teu
irmão corre a defender a terra de seus filhos, e a taba onde dorme os camucins de seus pais. Ele
saberá vencer depressa para voltar à tua presença.
— Teu irmão parte contigo. Nada separa dois guerreiros amigos quando troa a inúbia da
guerra.
— Tu és grande, como o mar, e bom como o céu.
Os dois amigos abraçaram-se; e seguiram com o rosto para as bandas do nascente.
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Caminhando, caminhando, chegaram os guerreiros à margem de um lago que havia nos
tabuleiros.
O cristão parou de repente e voltou o rosto para as bandas do mar: a tristeza saiu de seu
coração e subiu à fronte.
— Meu irmão, disse o chefe, teu pé criou raiz na terra do amor; fica: Poti voltará breve.
— Teu irmão te acompanha; ele disse, e sua palavra é como a seta de teu arco; quando soa, é
chegada.
— Queres tu que Iracema te acompanhe às margens do Acaraú?
— Nós vamos combater seus irmãos. A taba dos pitiguaras não terá para ela mais que tristeza
e dor. A filha dos tabajaras deve ficar.
— Que esperas tu então?
— Teu irmão se aflige porque a filha dos tabajaras pode ficar triste e abandonar a cabana,
sem esperar pela sua volta. Antes de partir ele queria sossegar o espírito da esposa.
Poti refletiu:
— As lágrimas da mulher amolecem o coração do guerreiro, como o orvalho da manhã
amolece a terra.
— Meu irmão é um grande sabedor. O esposo deve partir sem ver Iracema.
O cristão avançou. Poti mandou-lhe que esperasse; da aljava de setas que Iracema emplumara
de penas vermelhas e pretas, e suspendera aos ombros do esposo, tirou uma.
O chefe pitiguara vibrou o arco; a seta atravessou um goiamum que discorria pelas margens
do lago, e só parou onde a pluma não a deixou mais entrar.
Fincou o guerreiro no chão a flecha, com a presa atravessada, e tornou para Coatiabo:
— Tu podes partir agora. Iracema seguirá teu rastro; chegando aqui, verá tua seta, e
obedecerá à tua vontade.
Martim sorriu; e quebrando um ramo do maracujá, a flor da lembrança, o entrelaçou na haste
da seta, e partiu enfim seguido por Poti.
Breve desapareceram os dois guerreiros entre as árvores. O calor do Sol já tinha secado seus
passos na beira do lago. Iracema inquieta veio pela várzea seguindo o rastro do esposo até o
tabuleiro. As sombras doces vestiam os campos quando ela chegou à beira do lago.
Seus olhos viram a seta do esposo fincada no chão, o goiamum trespassado, o ramo partido, e
encheram-se de pranto.
— Ele manda que Iracema ande para trás, como o goiamum, e guarde sua lembrança, como o
maracujá guarda sua flor todo o tempo, até morrer.

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A filha dos tabajaras retraiu os passos lentamente, sem volver o corpo, nem tirar os olhos da
seta de seu esposo, e tornou à cabana. Aí sentada à soleira, com a fronte nos joelhos esperou, até
que o sono acalentou a dor em seu peito.
Apenas alvorou o dia, ela moveu o passo rápido a lagoa, e chegou à margem. A flecha lá
estava como na véspera: o esposo não tinha voltado.
Desde então à hora do banho, em vez de buscar a lagoa da beleza, onde outrora tanto gostara
de nadar, caminhava para aquela, que vira seu esposo abandoná-la. Sentava junto à flecha, até
que descia a noite; então se recolhia à cabana.
Tão rápida partia de manhã, como lenta voltava à tarde. Os mesmos guerreiros que a tinham
visto alegre nas águas da Porangaba, agora encontrando-a triste e só, como a garça viúva, na
margem do rio, chamavam aquele sítio da Mocejana, a abandonada.
Uma vez que a formosa filha de Araquém se lamentava à beira da lagoa da Mocejana, uma
voz estridente gritou seu nome do alto da carnaúba:
— Iracema!... Iracema!...
Ergueu ela os olhos e viu entre as folhas da palmeira sua linda jandaia, que batia as asas e
arrufava as penas com o prazer de vê-la.
A lembrança da pátria, apagada pelo amor, ressurgiu em seu pensamento. Viu os formosos
campos do Ipu; as encostas da serra onde nascera, a cabana de Araquém; e teve saudades; mas
ainda naquele instante, não se arrependeu de os ter abandonado.
Seu lábio gazeou em canto. A jandaia, abrindo as asas, esvoaçou-lhe em torno e pousou no
ombro. Alongando fagueira o colo, com o negro bico alisou-lhe os cabelos e beliscou a boca
vermelha como uma pitanga.
Iracema lembrou-se que tinha sido ingrata para a jandaia esquecendo-a no tempo da
felicidade; e agora ela vinha para a consolar no tempo da desventura.
Nesta tarde não voltou só à cabana. Durante o dia seus dedos ágeis teceram o formoso uru de
palha que forrou da felpa macia da monguba para agasalhar sua companheira e amiga.
Na seguinte alvorada foi a voz da jandaia que a despertou. A linda ave não deixou mais sua
senhora; ou porque depois da longa ausência não se fartasse de a ver, ou porque adivinhasse que
ela tinha necessidade de quem a acompanhasse em sua triste solidão.
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Uma tarde Iracema viu de longe dois guerreiros que avançavam pelas praias do mar. Seu
coração palpitou mais apressado.
Instante depois ela esquecia nos braços do esposo tantos dias de saudade e abandono, que
passara na solitária cabana. Outra vez sua graça encheu os olhos do cristão; a alegria voltou a
habitar em sua alma.
Como a seca várzea, com a vinda do nevoeiro, reverdece e matiza-se de flores, a formosa
filha do sertão com a volta do esposo reanimou-se; e sua beleza esmaltou-se de meigos e ternos
sorrisos.
Martim e seu irmão haviam chegado à taba de Jacaúna, quando soava a inúbia; eles guiaram
ao combate os mil arcos de Poti. Ainda dessa vez os tabajaras, apesar da aliança dos brancos
tapuias do Mearim, foram levados de vencida pelos valentes pitiguaras.
Nunca tão disputada vitória e tão renhida pugna se pelejou nos campos que regam o Acaraú e
o Camucim; o valor era igual de parte a parte, e nenhum dos dois povos fora vencido, se o deus
da guerra não tivesse decidido dar estas plagas à raça do guerreiro branco, aliada dos pitiguaras.
Logo após a vitória o cristão tornara às praias do mar, onde construíra sua cabana. De novo
sentiu em sua alma a sede do amor; e tremia de pensar que Iracema houvesse partido, deixando
ermo aquele sítio tão povoado outrora pela felicidade.
O cristão amou outra vez a filha do sertão, como da primeira vez, quando parece que o tempo
não poderá exaurir o coração. Mas breves sóis bastaram para murchar aquelas flores de um
coração exilado da pátria.
O imbu, filho da serra, se nasceu na várzea porque o vento ou as aves trouxeram a semente,
vingou, achando boa terra e fresca sombra; talvez um dia copou a verde folhagem e enflorou.
Mas basta um sopro do mar, para tudo murchar. As folhas lastram o chão; as flores, leva-as a
brisa.
Como o imbu na várzea era o coração do guerreiro branco na terra selvagem. A amizade e o
amor o acompanharam e sustiveram algum tempo; mas agora longe de sua casa e de seus irmãos,
sentiu-se em um ermo. O amigo e a esposa não chegavam mais à sua existência, cheia de grandes
e nobres ambições.
Passava os já tão breves, agora longos sóis, na praia, ouvindo gemer o vento e soluçar as
ondas. Os olhos, engolfados na imensidade do horizonte, buscavam, mas embalde, discenir do
azul diáfano a alvura de uma vela perdida nos mares.
À distância curta da cabana, se elevava à borda do oceano um alto morro de areia; pela
semelhança com a cabeça do crocodilo o chamavam os pescadores Jacarecanga. Do seio das
brancas areias escaldadas pelo ardente sol, manava uma água fresca e pura; assim destila a dor
lágrimas doces de alívio e consolo.

73

A esse monte subia o cristão; e lá ficava cismando em seu destino. Às vezes lhe vem à mente
a idéia de tornar à sua terra e aos seus; mas ele sabe que Iracema o acompanhará; e essa
lembrança lhe remorde o coração. Cada passo mais que afaste dos campos nativos a filha dos
tabajaras, agora que não tem o ninho de seu coração para abrigar-se, é uma porção da vida que
lhe rouba.
Poti conhece que Martim deseja estar só, e afasta-se discreto. O guerreiro sabe o que aflige a
alma do seu irmão; e tudo espera do tempo, porque só o tempo endurece o coração do guerreiro,
como o cerne do jacarandá.
Iracema também foge dos olhos do esposo, porque já percebeu que esses olhos tão amados se
turbam com a vista dela, e em vez de se encherem de sua beleza como outrora, a despedem de si.
Mas os olhos dela não se cansam de acompanhar à parte e de longe o guerreiro senhor, que os fez
cativos.
Ai dela!... Sentiu já o golpe no coração e como a copaíba ferida no âmago, destila lágrimas
em fio.

74

28

Uma vez o cristão ouviu dentro em sua alma o soluço de Iracema: seus olhos buscaram em
torno e não a viram.
A filha de Araquém estava além, entre as verdes moitas de ubaia, sentada na relva. O pranto
desfiava de seu belo semblante; e as gotas que rolavam a uma e uma caíam sobre o regaço, onde
já palpitava e crescia o filho do amor. Assim caem as folhas da árvore viçosa antes que
amadureça o fruto.
— O que espreme as lágrimas do coração de Iracema?
— Chora o cajueiro quando fica tronco seco e triste. Iracema perdeu sua felicidade, depois
que te separaste dela.
— Não estou eu junto a ti?
— Teu corpo está aqui; mas tua alma voa à terra de teus pais, e busca a virgem branca, que te
espera.
Martim doeu-se. Os grandes olhos negros que a indiana pousara nele o tinham ferido no
âmago.
— O guerreiro branco é teu esposo: ele te pertence.
A formosa tabajara sorriu em sua tristeza:
— Quanto tempo há que retiraste de Iracema teu espírito? Antes teu passo te guiava para as
frescas serras e os alegres tabuleiros; teu pé gostava de pisar a terra da felicidade e seguir o rastro
da esposa. Agora só buscas as praias ardentes, porque o mar que lá murmura vem dos campos em
que nasceste; e o morro das areias, porque do alto se avista a igara que passa.
— É a ânsia de combater o tupinambá que volve o passo do guerreiro para as bordas do mar,
respondeu o cristão.
Iracema continuou:
— Teu lábio secou para a esposa, como a cana quando ardem os grandes sóis; perde o grato
mel e as folhas murchas não podem mais brincar quando passa a brisa. Agora só falas ao vento da
praia para que ele leve tua voz à cabana de teus pais.
— A voz do guerreiro branco chama seus irmãos para defender a cabana de Iracema e a terra
de seu filho, quando o inimigo vier.
A esposa meneou a cabeça:
— Quando tu passas no tabuleiro, teus olhos fogem do fruto do jenipapo e buscam a flor do
espinheiro; a fruta é saborosa, mas tem a cor dos tabajaras; a flor tem a alvura das faces da
virgem branca. Se cantam as aves, teu ouvido não gosta já de escutar o canto mavioso da graúna;

75

mas tua alma se abre para o grito do japim, porque ele tem as penas douradas como os cabelos
daquela que tu amas!
— A tristeza escurece a vista de Iracema e amarga seu lábio. Mas a alegria há de voltar à
alma da esposa, como volta à árvore a verde rama.
— Quando teu filho deixar o seio de Iracema, ela morrerá, como o abati depois que deu seu
fruto. Então o guerreiro branco não terá mais quem o prenda na terra estrangeira.
— Tua voz queima, filha de Araquém, como o sopro que vem dos sertões do Icó, no tempo
dos grandes calores. Queres tu abandonar teu esposo?
— Vêem teus olhos lá o formoso jacarandá, que vai subindo às nuvens; a seus pés ainda está
a seca raiz da murta frondosa, que todos os invernos se cobria de rama e bagos vermelhos, para
abraçar o tronco irmão. Se ela não morresse, o jacarandá não teria sol para crescer àquela altura.
Iracema é a folha escura que faz sombra em tua alma; deve cair, para que a alegria alumie teu
seio.
O cristão cingiu o talhe da formosa indiana e a estreitou ao peito. Seu lábio levou ao lábio da
esposa um beijo, mas áspero e amargo.

76

29

Poti voltou do banho.
Segue na areia o rastro de Coatiabo, e sobe ao alto da Jacarecanga. Aí encontra o guerreiro
em pé no cabeço do monte, com os olhos alongados e os braços estendidos para os largos mares.
Volve o pitiguara as vistas e descobre uma grande igara, que vem sulcando os verdes mares,
impelida pelo vento:
— É a grande igara dos irmãos de meu irmão que vem buscá-lo!
O cristão suspirou:
— São os guerreiros brancos inimigos de minha raça, que buscam as praias da valente nação
pitiguara, para a guerra da vingança: eles foram derrotados com os tabajaras nas margens do
Camucim; agora vêm com seus amigos os tupinambás pelo caminho do mar.
— Meu irmão é um grande chefe. Que pensa ele que deve fazer seu irmão Poti?
— Chama os caçadores de Soipé e os pescadores do Trairi. Nós iremos ao seu encontro.
Poti acordou a voz da inúbia; e os dois guerreiros partiram ambos para o Mocoribe. Pouco
além viram os guerreiros de Jaguaraçu e Camoropim que corriam ao grito de guerra. O irmão de
Jacaúna os avisou da vinda do inimigo.
O grande maracatim corre nas ondas, ao longo da terra que se dilata até às margens do
Parnaíba. A lua começava a crescer quando ele deixou as águas do Mearim; ventos contrários o
tinham arrastado para os altos-mares, muito além de seu destino.
Os guerreiros pitiguaras, para não espantar o inimigo, se ocultam entre os cajueiros; e vão
seguindo pela praia a grande igara: durante o dia avultam as brancas velas; de noite os fogos
atravessam a negrura do mar, como vaga-lumes perdidos na mata.
Muitos sóis caminharam assim. Passam além do Camucim, e afinal pisam as lindas ribeiras
da enseada dos papagaios.
Poti manda um guerreiro ao grande Jacaúna e se prepara para o combate. Martim, que subiu
ao morro de areia, conhece que o maracatim vem recolher no seio da terra; e avisa seu irmão.
O Sol já nasceu; os guerreiros guaraciabas e os tupinambás, seus amigos, correm sobre as
ondas nas ligeiras pirogas e pojam na praia. Formam o grande arco, e avançam como o cardume
do peixe quando corta a correnteza do rio.
No centro estão os guerreiros do fogo, que trazem o raio; nas assas os guerreiros do Mearim,
que brandem o tacape.
Mas nação alguma jamais vibrou o arco certeiro como a grande nação pitiguara; e Poti é o
maior chefe, de quantos chefes empunharam a inúbia guerreira. Ao seu lado caminha o irmão, tão
grande chefe como ele, e sabedor das manhas da raça branca dos cabelos do sol.

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Durante a noite os pitiguaras fincam na praia a forte caiçara de espinho, e levantam contra ela
um muro de areia, onde o raio esfria e se apaga. Aí esperam o inimigo. Martim manda que outros
guerreiros subam à copa dos mais altos coqueiros; ali defendidos pelas largas palmas, esperam o
momento do combate.
A seta de Poti foi a primeira que partiu, e o chefe dos guaraciabas o primeiro herói que
mordeu o pó da terra estrangeira. Rugem os trovões na destra dos guerreiros brancos; mas os
raios que desferem mergulham-se na areia, ou se perdem nos ares.
As setas dos pitiguaras já caem do céu, já voam da terra, e se embebem todas no seio do
inimigo. Cada guerreiro tomba crivado de muitas flechas, como a presa que as piranhas disputam
nas águas do lago.
Os inimigos embarcam outra vez nas pirogas, e voltam ao maracatim em busca dos grandes e
pesados trovões, que um homem só nem dois podem manejar.
Quando voltam, o chefe dos pescadores, que corre nas águas do mar como o veloz
camoropim, de que tomou o nome, se arroja nas ondas, e mergulha. Ainda a espuma não se
apagara, e já a piroga inimiga se afundou, parecendo que a tragara uma baleia.
Veio a noite, que trouxe o repouso.
Ao romper d’alva, o maracatim fugia no horizonte para as margens do Mearim. Jacaúna
chegou, não mais para o combate e sim para o festim da vitória.
Nessa hora em que o canto guerreiro dos pitiguaras celebrava a derrota dos guaraciabas, o
primeiro filho que o sangue da raça branca gerara nessa terra da liberdade via a luz nos campos
da Porangaba.
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30

Iracema cuidou que o seio rompia-se; e buscou a margem do rio, onde crescia o coqueiro.
Estreitou-se com a haste da palmeira. A dor lacerou suas entranhas; porém logo o choro
infantil inundou todo o seu ser de júbilo.
A jovem mãe, orgulhosa de tanta ventura, tomou o tenro filho nos braços e com ele arrojou-se
às águas límpidas do rio. Depois suspendeu-o à teta mimosa; seus olhos então o envolviam de
tristeza e amor.
— Tu és Moacir, o nascido de meu sofrimento.
A ará, pousada no olho do coqueiro, repetiu Moacir; e desde então a ave amiga em seu canto
unia ao nome da mãe, o nome do filho.
O inocente dormia; Iracema suspirava:
— A jati fabrica o mel no tronco cheiroso do sassafrás; toda a lua das flores voa de ramo em
ramo, colhendo o suco para encher os favos; mas ela não prova sua doçura, porque a irara devora
em uma noite toda a colmeia. Tua mãe também, filho de minha angústia, não beberá em teus
lábios o mel do sorriso.
A jovem mãe passou aos ombros a larga faixa de macio algodão, que fabricara para trazer o
filho sempre unido ao flanco; e seguiu pela areia o rastro do esposo, que há três sóis partira. Ela
caminhava docemente para não despertar a criancinha, adormecida como o passarinho sob a asa
materna.
Quando chegou junto ao grande morro das areias, viu que o rastro de Martim e Poti seguia ao
longo da praia; e adivinhou que eles eram partidos para a guerra. Seu coração suspirou; mas seus
olhos secos buscaram o semblante do filho.
Volve o rosto para o Mocoribe:
— Tu és o morro da alegria; mas para Iracema tu não tens senão tristeza.
Tornando, a recente mãe pousou a criança sempre dormida na rede de seu pai, viúva e
solitária em meio da cabana; ela deitou-se ao chão, na esteira onde repousava, desde que os
braços do esposo se não tinham mais aberto para recebê-la.
A luz da manhã estrava pela cabana, e Iracema viu entrar com ela a sombra de um guerreiro.
Caubi estava em pé na porta.
A esposa de Martim ergueu-se de um ímpeto e saltou avante para proteger o filho. Seu irmão
levantou da rede a ela uns olhos tristes, e falou com a voz ainda mais triste:
— Não foi a vingança que arrancou o guerreiro Caubi aos campos dos tabajaras; ele já
perdoou. Foi a vontade de ver Iracema, que trouxe consigo toda sua alegria.

80

— Então bem-vindo seja o guerreiro Caubi na cabana de seu irmão, respondeu a esposa
abraçando-o.
— O nascido de teu seio dorme nesta rede; os olhos de Caubi gostariam de vê-lo.
Iracema abriu a franja de penas; e mostrou o lindo semblante da criança. Caubi depois que o
contemplou por muito tempo, entre risos, disse:
— Ele chupou tua alma.
E beijou nos olhos da jovem mãe, a imagem da criança, que não se animava tocar com receio
de ofender:
A voz trêmula da filha ressoou:
— Ainda vive Araquém sobre a terra?
— Pena ainda; depois que tu o deixaste sua cabeça vergou para o peito e não se ergueu mais.
— Dize-lhe que Iracema é morta já, para que ele se console.
A irmã de Caubi preparou a refeição para o guerreiro, e armou no copiar a rede da
hospitalidade para que ele repousasse das fadigas da jornada. Quando o viajante satisfez o apetite,
ergueu-se com estas palavras:
— Diz onde está teu esposo e meu irmão, para que o guerreiro Caubi lhe dê o abraço da
amizade.
Os lábios suspirosos da mísera esposa se moveram como as pétalas do cacto que um sopro
amarrota, e ficaram mudos. Mas as lágrimas debulharam dos olhos, e caíram em bagas.
O rosto de Caubi anuviou-se:
— Teu irmão pensava que a tristeza ficara nos campos que abandonaste: porque contigo
trouxeste todo o riso dos que te amavam!
Iracema secou os olhos:
— O esposo de Iracema partiu com o guerreiro Poti para as praias do Acaraú. Antes que três
sóis tenham alumiado a terra ele voltará, e com ele a alegria à alma da esposa.
— O guerreiro Caubi o espera para saber o que ele fez do sorriso que morava em teus lábios.
A voz do tabajara enrouquecera; seu passo inquieto volveu a esmo pela cabana.
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Iracema cantava docemente, embalando a rede para acalentar o filho.
A areia da praia crepitou sob o pé forte e rijo do guerreiro tabajara, que vinha das bordas do
mar depois da abundante pesca.
A jovem mãe cruzou as franjas da rede, para que as moscas não inquietassem o filho
acalentado, e foi ao encontro do irmão:
— Caubi vai tornar às montanhas dos tabajaras! disse ela com brandura.
O guerreiro anuviou-se:
— Tu despedes teu irmão da cabana para que ele não veja a tristeza que a enche.
— Araquém teve muitos filhos em sua mocidade; uns a guerra levou e morreram como
valentes; outros escolheram uma esposa, e geraram por sua vez numerosa prole: filhos de sua
velhice, Araquém só teve dois. Iracema é para ele como a rola que o caçador tirou do ninho. Só
resta o guerreiro Caubi ao velho pajé, para suster seu corpo vergado, e guiar seu passo trêmulo.
— Caubi partirá quando a sombra deixar o rosto de Iracema.
— Como vive estrela da noite, vive Iracema em sua tristeza. Só os olhos do esposo podem
apagar a sombra em seu rosto. Parte, para que eles não se turvem com tua vista.
— Teu irmão parte para agradar tua vontade; mas ele voltará todas as vezes que o cajueiro
florescer para sentir em seu coração o filho de teu ventre.
Entrou na cabana. Iracema tirou da rede a criança; e ambos, mãe e filho, palpitaram sobre o
peito do guerreiro tabajara. Depois, Caubi passou a porta, e sumiu-se entre as árvores.
Iracema, arrastando o passo trêmulo, o acompanhou de longe até que o perdeu de vista na orla
da mata. Aí parou: quando o grito da jandaia de envolta com o choro infantil a chamou à cabana,
a areia fria onde esteve sentada guardou o segredo do pranto que embebera.
A jovem mãe suspendeu o filho à teta; mas a boca infantil não emudeceu. O leite escasso não
apojava o peito.
O sangue da infeliz diluía-se todo nas lágrimas incessantes que não estancavam dos olhos;
nenhum chegava aos seios, onde se forma o primeiro licor da vida.
Ela dissolveu a alva carimã e preparou ao fogo o mingau para nutrir o filho. Quando o sol
dourou a crista dos montes, partiu pa-ra a mata, levando ao colo a criança adormecida.
Na espessura do bosque está o leito da irara ausente; os tenros cachorrinhos grunhem
enrolando-se uns sobre os outros. A formosa tabajara aproxima-se de manso. Prepara para o filho
um berço da macia rama do maracujá; e senta-se perto.

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Põe no regaço um por um os filhos da irara; e lhes abandona os seios mimosos, cuja teta rubra
como a pitanga ungiu do mel da abelha. Os cachorrinhos famintos precipitam gulosos e sugam os
peitos avaros de leite.
Iracema curte dor, como nunca sentiu; parece que lhe exaurem a vida, mas os seios vão-se
intumescendo; apojaram afinal, e o leite, ainda rubro do sangue, de que se formou, esguicha.
A feliz mãe arroja de si os cachorrinhos, e cheia de júbilo mata a fome ao filho. Ele é agora
duas vezes filho de sua dor, nascido dela e também nutrido.
A filha de Araquém sentiu afinal que suas veias se estancavam; e contudo o lábio amargo de
tristeza recusava o alimento que devia restaurar-lhe as forças. O gemido e o suspiro tinham
crestado com o sorriso o sabor em sua boca formosa.

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32

Descamba o Sol.
Japi sai do mato e corre para a porta da cabana.
Iracema, sentada com o filho no colo, banha-se nos raios do Sol e sente o frio arrepiar-lhe o
corpo. Vendo o animal, fiel mensageiro do esposo, a esperança reanimou seu coração; quis
erguer-se para ir ao encontro de seu guerreiro senhor, mas os membros débeis se recusaram à sua
vontade.
Caiu desfalecida contra o esteio. Japi lambia-lhe a mão desfalecida e pulava travesso para
fazer sorrir a criança, soltando uns doces latidos de prazer. Por vezes, afastava-se para correr até a
orla da mata, e latir chamando o senhor; logo, tornava à cabana para festejar a mãe e o filho.
Por esse tempo pisava Martim os campos amarelos do Tauape; seu irmão Poti, o inseparável,
caminhava a seu lado.
Oito luas havia que ele deixara as praias da Jacarecanga. Depois de vencidos os guaraciabas
na baía dos papagaios, o guerreiro cristão quis partir para as margens do Mearim, onde habitava o
bárbaro aliado dos tupinambás.
Poti e seus guerreiros o acompanharam. Depois que transpuseram o braço corrente do mar
que vem da serra de Tanatinga e banha as várzeas onde se pesca o piau, viram enfim as praias do
Mearim, e a velha taba do bárbaro tapuia.
A raça dos cabelos do sol cada vez ganhava mais a amizade dos tupinambás: crescia o
número dos guerreiros brancos, que já tinham levantado na ilha a grande itaoca, para despedir o
raio.
Quando Martim viu o que desejava, tornou aos campos da Porangaba, que ele agora trilha. Já
ouve o ronco do mar nas praias do Mocoribe; já lhe bafeja o rosto o sopro vivo das vagas do -
oceano.
Quanto mais seu passo o aproxima da cabana, mais lento se torna e pesado. Tem medo de
chegar; e sente que sua alma vai sofrer, quando os olhos tristes e magoados da esposa entrarem
nela.
Há muito que a palavra desertou seu lábio seco; o amigo respeita este silêncio, que ele bem
entende. É o silêncio do rio quando passa nos lugares profundos e sombrios.
Tanto que os dois guerreiros tocaram as margens do rio, ouviram o latir do cão, que os
chamava, e o grito da ará, que se lamentava. Estavam mui próximos à cabana, apenas oculta por
uma língua de mato. O cristão parou calcando a mão no peito para sofrear o coração, que saltava
como o poraquê.
— O latido de Japi é de alegria, disse o chefe.

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— Porque chegou; mas a voz da jandaia é de tristeza. Achará o guerreiro ausente a paz no
seio da esposa solitária, ou terá a saudade matado em suas entranhas o fruto do amor?
O cristão moveu o passo vacilante. De repente, entre os ramos das árvores, seus olhos viram,
sentada à porta da cabana, Iracema com o filho no regaço e o cão a brincar. Seu coração o
arrastou de um ímpeto, e toda a alma lhe estalou nos lábios:
— Iracema!...
A triste esposa e mãe soabriu os olhos, ouvindo a voz amada. Com esforço grande, pôde
erguer o filho nos braços e apresentá-lo ao pai, que o olhava extático em seu amor.
— Recebe o filho de teu sangue. Chegastes a tempo; meus seios ingratos já não tinham
alimento para dar-lhe!
Pousando a criança nos braços paternos, a desventurada mãe desfaleceu como a jetica se lhe
arrancam o bulbo. O esposo viu então como a dor tinha murchado seu belo corpo; mas a
formosura ainda morava nela, como o perfume na flor caída do manacá.
Iracema não se ergueu mais da rede onde a pousaram os aflitos braços de Martim. O terno
esposo, em que o amor renascera com o júbilo paterno, a cercou de carícias que encheram sua
alma de alegria, mas não a puderam tornar à vida: o estame de sua flor se rompera.
— Enterra o corpo de tua esposa ao pé do coqueiro que tu amaste. Quando o vento do mar
soprar nas folhas, Iracema pensará que é tua voz que fala entre seus cabelos.
O lábio emudeceu para sempre; o último lampejo despediu-se dos olhos baços.
Poti amparou o irmão em sua grande dor. Martim sentiu quanto um amigo verdadeiro é
precioso na desventura: é como o outeiro que abriga do vendaval o tronco forte e robusto do
ubiratã, quando o broca o cupim.
O camucim recebeu o corpo de Iracema, embebido de resinas odoríferas; e foi enterrado ao pé
do coqueiro, à borda do rio. Martim quebrou um ramo de murta, a folha da tristeza, e deitou-o no
jazigo de sua esposa.
A jandaia pousada no olho da palmeira repetia tristemente:
— Iracema!
Desde então os guerreiros pitiguaras, que passavam perto da cabana abandonada e ouviam
ressoar a voz plangente da ave amiga, se afastavam, com a alma cheia de tristeza, do coqueiro
onde cantava a jandaia.
E foi assim que um dia veio a chamar-se Ceará o rio onde crescia o coqueiro, e os campos
onde serpeja o rio.
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33

O cajueiro floresceu quatro vezes depois que Martim partiu das praias do Ceará, levando no
frágil barco o filho e o cão fiel. A jandaia não quis deixar a terra onde repousava sua amiga e
senhora.
O primeiro cearense, ainda no berço, emigrava da terra da pátria. Havia aí a predestinação de
uma raça?
Poti com seus guerreiros esperava na margem do rio. O cristão lhe prometera voltar. Todas as
manhãs subia ao morro das areias e volvia os olhos ao mar a ver se branqueava ao longe a vela
amiga.
Afinal volta Martim de novo às terras, que foram de sua felicidade, e são agora de amarga
saudade. Quando seu pé sentiu o calor das brancas areias, derramou-se por todo seu ser um fogo
ardente, que lhe requeimou o coração: era o fogo das recordações acesas.
A chama só aplacou quando ele tocou a terra onde dormia sua esposa; porque nesse instante
seu coração transudou, como o tronco do jataí nos ardentes calores, e refrescou sua pena de
lágrimas abundantes.
Muitos guerreiros de sua raça acompanharam o chefe branco, para fundar com ele a mairi dos
cristãos. Veio também um sacerdote de sua religião, de negras vestes, para plantar a cruz na terra
selvagem.
Poti foi o primeiro que ajoelhou aos pés do sagrado lenho; não sofria ele que nada mais o
separasse de seu irmão branco; por isso quis tivessem ambos um só deus, como tinham um só
coração.
Ele recebeu com o batismo o nome do santo, cujo era o dia; e o do rei, a quem ia servir, e
sobre os dois o seu, na língua dos novos irmãos. Sua fama cresceu, e ainda hoje é o orgulho da
terra, onde ele viu a luz primeiro.
A mairi que Martim erguera à margem do rio, nas praias do Ceará, medrou. A palavra do
Deus verdadeiro germinou na terra selvagem; e o bronze sagrado ressoou nos vales onde rugia o
maracá.
Jacaúna veio habitar nos campos da Porangaba para estar perto de seu amigo branco;
Camarão assentou a taba de seus guerreiros nas margens da Mocejana.
Tempo depois, quando veio Albuquerque, o grande chefe dos guerreiros brancos, Martim e
Camarão partiram para as margens do Mearim a castigar o feroz tupinambá e expulsar o branco
tapuia.
Era sempre com emoção que o esposo de Iracema revia as plagas onde fora tão feliz, e as
verdes folhas a cuja sombra dormia a formosa tabajara.

88

Muitas vezes ia sentar-se naquelas doces areias, para cismar e acalentar no peito a agra
saudade.
As jandaias cantavam ainda no olho do coqueiro; mas não repetiam já o mavioso nome de
Iracema.
Tudo passa sobre a terra.

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Notas

Argumento Histórico —
Em 1603, Pero Coelho, homem nobre da Paraíba, partiu como
capitão-mor de descoberta, levando uma força de 80 colonos e 800 índios. Chegou à foz do
Jaguaribe e aí fundou o povoado que teve o nome de
Nova Lisboa
.
Foi esse o primeiro estabelecimento colonial do Ceará.
Como Pero Coelho se visse abandonado dos sócios, mandaram-lhe João Soromenho com
socorros. Esse oficial, autorizado a fazer cativos para indenização das despesas, não respeitou
os próprios índios do Jaguaribe, amigos dos portugueses.
Tal foi a causa da ruína do nascente povoado. Retiraram-se os colonos, pelas hostilidades
dos indígenas; e Pero Coelho ficou ao desamparo, obrigado a voltar à Paraíba por terra, com
sua mulher e filhos pequenos.
Na primeira expedição foi do Rio Grande do Norte um moço de nome Martim Soares
Moreno, que se ligou de amizade com Jacaúna, chefe dos índios do litoral, e seu irmão Poti. Em
1608 por ordem de D. Diogo Meneses voltou a dar princípio à regular colonização daquela
capitania: o que levou a efeito fundando o presídio de Nossa Senhora do Amparo em 1611.
Jacaúna, que habitava as margens do
Acaracu
, veio estabelecer-se com sua tribo nas
proximidades do recente povoado, para o proteger contra os índios do interior e os franceses
que infestavam a costa.
Poti recebeu no batismo o nome de Antônio Felipe Camarão, que ilustrou na guerra
holandesa. Seus serviços foram remunerados com o foro de fidalgo, a comenda de Cristo e o
cargo de capitão-mor dos índios.
Martim Soares Moreno chegou a mestre-de-campo e foi um dos excelentes cabos portugueses
que libertaram o Brasil da invasão holandesa. O Ceará deve honrar sua memória como a de um
varão prestante e seu verdadeiro fundador, pois que o primeiro povoado à foz do rio Jaguaribe
foi apenas uma tentativa frustrada.
Este é o argumento histórico da lenda; em notas especiais se indicarão alguns outros
subsídios recebidos dos cronistas do tempo.
Há uma questão histórica relativa a este assunto; falo da pátria do Camarão, que um
escritor pernambucano quis pôr em dúvida, tirando a glória ao Ceará para a dar à sua
província.
Este ponto, aliás somente contestado nos tempos modernos pelo Sr. comendador Melo em
suas
Biografias
, me parece suficientemente elucidado já, depois da erudita carta do Sr. Basílio
Quaresma Torreão, publicada no
Mercantil
nº 26 de 26 de janeiro de 1860, 2ª página.
90

povo notícias do Camarão, como existia uma velha mulher que se dizia dele sobrinha. Essa
tradição foi colhida por diversos escritores, entre eles o conspícuo autor da
Corografia Brasílica.
O autor do
Valeroso Lucideno
é dos antigos o único que positivamente afirma ser Camarão
filho de Pernambuco; mas além de encontrar essa asserção a versão de outros escritores de
nota, acresce que Berredo explica perfeitamente o dito daquele escritor, quando fala da
expedição de Pero Coelho de Souza a Jaguaribe,
sítio naquele tempo e também no de hoje da
jurisdição de Pernambuco.

Outro ponto é necessário esclarecer para que não me censurem de infiel à verdade histórica.
É a nação de Jacaúna e Camarão que alguns pretendem ter sido a tabajara.
Há nisso manifesto engano.
Em todas as crônicas se fala das tribos de Jacaúna e Camarão como habitantes do litoral, e
tanto que auxiliam a fundação do Ceará, como já haviam auxiliado a da Nova Lisboa em
Jaguaribe. Ora, a nação que habitava o litoral entre o Parnaíba e o Jaguaribe ou Rio-Grande
era a dos pitiguaras, como atesta Gabriel Soares. Os tabajaras habitavam a serra de Ibiapaba, e
portanto o interior.
Como chefes dos tabajaras são mencionados Mel Redondo no Ceará e Grão Deabo em
Piauí. Esses chefes foram sempre inimigos irreconciliáveis e rancorosos dos portugueses, e
aliados dos franceses do Maranhão que penetraram até Ibiapaba. Jacaúna e Camarão são
conhecidos por sua aliança firme com os portugueses.
Mas o que solve a questão é o seguinte texto. Lê-se nas
Memórias diárias
da guerra brasílica
do conde de Pernambuco: — 1634, janeiro, 18: “Pelo bom procedimento com que havia servido
A. F. Camarão o fez El-rei capitão-mor de todos os índios não somente de
sua nação, que era
Pitiguar, nas das outras residentes em várias aldeias.”
Esta autoridade, além de contemporânea, testemunhal, não pode ser recusada, especialmente
quando se exprime tão positiva e intencionalmente a respeito do ponto duvidoso.

Pág. 15, I. Onde canta a jandaia
—
Diz a tradição que Ceará significa na língua indígena
—
canto de jandaia.
Aires do Casal,
Corografia Brasílica
, refere essa tradição. O senador Pompeu em seu
excelente dicionário topográfico, menciona uma opinião, nova para mim, que pretende vir
Siará
da palavra
suia
— caça, em virtude da abundância de caça que se encontrava nas margens do
rio. Essa etimologia é forçada. Para designar quantidade, usava a língua tupi da desinência
iba;
a desinência
ára
junta aos verbos designa o sujeito que exercita a ação atual; junta aos nomes o
que tem atualmente o objeto; ex.:
Coatiara — o que pinta; Juçara
— o que tem espinhos.
Ceará é o nome composto de
cemo — cantar forte, clamar, e ará —
pequena arara ou
II. Jirau
—
Na jangada é uma espécie de estrado onde acomodam os passageiros; e às vezes
III. Rugitar
—
É um verbo de minha composição para o qual peço vênia. Filinto Elísio
criou
ruidar de ruído.
IV. Iracema
— Em guarani significa lábios de mel — de ira, mel e tembe — lábios. Tembe
na composição altera-se em
ceme, como na palavra ceme-iba.
Pág. 17/18, I. Graúna
—
É o pássaro conhecido de cor negra luzidia. Seu nome vem por
corrupção de
guira— pássaro, e una, abreviação de pixuna — preto.
II. Jati
— Pequena abelha que fabrica delicioso mel.
III. Ipu
—
Chamam ainda hoje no Ceará certa qualidade de terra muito fértil, que forma
91

IV. Tabajaras
— Senhores das aldeias, de taba — aldeia, e jara
— senhor. Essa nação
Pág. 17, I. Oiticica
—
Árvore frondosa, apreciada pela deliciosa frescura que derrama sua
II. Gará
— Ave paludal, muito conhecida pelo nome de guará
. Penso eu que esse nome anda
corrompido de sua verdadeira origem, que é
ig — água, e ará —
arara: arara d´água. Também
III. Ará
—
Periquito. Os indígenas como aumentativo usavam repetir a última sílaba da
palavra e às vezes toda a palavra, como
murémuré. Muré — frauta, muremuré — grande frauta.
Arárá vinha a ser, pois, o aumentativo de ará, e significaria a espécie maior do gênero.
IV. Uru
—
Cestinho que servia de cofre às selvagens para guardar seus objetos de mais
V. Crautá
— Bromélia vulgar, de que se tiram fibras tão ou mais finas que as do linho.
VI. Juçara
—
Palmeira de grandes espinhos, das quais servem-se ainda hoje para dividir os
Pág. 18, I. Uiraçaba
— Aljava, de uira— seta, e a desinência çaba — coisa própria.
II. Quebrar a flecha
—
Era entre os indígenas a maneira simbólica de estabelecer a paz
Pág. 19, I. Ibiapaba
—
Grande serra que se prolonga ao norte da província e a extrema
com Piauí. Significa terra aparada. O Dr. Martius em seu
Glossário lhe atribui outra etimologia.
Iby— terra, e pabe — tudo. A primeira porém tem a autoridade de Vieira.
II. Igaçaba
— De ig— água, e a desinência çaba — coisa própria. Vaso, pote.
III. Vieste
— A saudação usual da hospitalidade era esta: — Ere ioubê — tu vieste? — Paaiotu
— vim, sim. — Auge-be — bem dito. Veja-se Lery, pág. 286.
Pág. 20, I. Jaguaribe
—
O maior rio da província; tirou o nome da quantidade de onças que
povoavam suas margens.
Jaguar — onça, iba— desinência para exprimir cópia, abundância.
II. Martim
—
Da origem latina de seu nome, procedente de Marte, deduz o estrangeiro a
III. Pitiguaras
—
Grande nação de índios que habitava o litoral da província e estendia-se
desde o Parnaíba até o Rio Grande do Norte. A ortografia do nome anda mui viciada nas
diferentes versões, pelo que se tornou difícil conhecer a etimologia.
Iby significava terra; iby-tira
veio a significar serra, ou terra alta. Aos vales chamavam os indígenas
iby-tira-cua
— cintura
das montanhas. A desinência
jara — senhor, acrescentada, formou a palavra Ibiticuara,
que por
corrução deu
Pitiguara — senhores dos vales.
V. Mau espírito da floresta
— Os indígenas chamavam a esses espíritos caa-pora;
habitantes da mata, donde por corrupção veio a palavra caipora, introduzida na língua
portuguesa em sentido figurado.

Pág. 21. As mais belas mulheres
—
Este costume da hospitalidade americana é atestado
pelos cronistas. A ele se atribui o belo rasgo de virtude de Anchieta, que, para fortalecer a sua
castidade, compunha nas praias de Iperoig o poema da
Virgindade de Maria,
cujos versos
Pág. 21, I. Jurema
—
Árvore meã, de folhagem espessa; dá um fruto excessivamente
92

a pessoa fruía neles melhor do que na realidade. A fabricação desse licor era um segredo,
explorado pelos pajés, em proveito de sua influência.
Jurema é composto de ju— espinho, e rema
— cheiro desagradável.
II. Irapuã
— De ira — mel, e apuam —
redondo; é o nome dado a uma abelha virulenta e
brava, por causa da forma redonda de sua colmeia. Por corrupção reduziu-se esse nome
atualmente a
arapuá.
O guerreiro de que se trata aqui é o célebre Mel Redondo, assim chamado
IV. Acaraú
— O nome do rio é Acaracu — de acará — garça, co — buraco, toca, ninho e y
— som dúbio entre
i e u,
que os portugueses ora exprimiam de um, ora de outro modo,
significando água. Rio do ninho das garças é, pois, a tradução de
Acaracu; e rio das garças a de
Acaraú. Usou-se aqui da liberdade horaciana para evitar em uma obra literária, obra de gosto e
artística, um som áspero e ingrato. De resto quem sabe se o nome primitivo não foi realmente
Acaraú, que se alterou como tantos outros, pela introdução da consoante?

III. Estrela morta
—
A estrela polar, por causa da sua imobilidade; orientavam-se por ela
Pág. 22, I. Boicininga
— É a cobra cascavel, de boia — cobra, e cininga — chocalho.
II. Oitibó
— É uma ave noturna, espécie de coruja.
Pág. 23, I. Espíritos da treva
— A esses espíritos chamavam os selvagens curupira,
meninos
maus, de
curumim — menino, e pira — mau.
II. Boré —
Frauta de bambu, o mesmo que muré.
III. Ocara
—
Praça circular que ficava no centro da taba, cercada pela estacada, e para a
qual abriam todas as casas. Composto de
oca — casa, e a desinência ara —
que tem; aquilo que
Pág. 23, I. Potiuara
— Comedor de camarão; de poty e uara
. Nome (potiguara) que por
II. Pocema
—
Grande alarido que faziam os selvagens nas ocasiões solenes, como em
começo de batalha, ou nas expansões da alegria; é palavra adotada já na língua portuguesa e
inserida no dicionário de Morais. Vem de
po — mão, e cemo
— clamar: clamor das mãos,
III. Andira
—
Morcego; é em alusão a seu nome que Irapuã dirige logo palavras de
Pág. 25. Aracati
— Significa este nome bom tempo — de ara e catu
. Os selvagens do sertão
assim chamavam as brisas do mar que sopram regularmente ao cair da tarde e, correndo pelo
vale do Jaguaribe, se derramam pelo interior e refrigeram da calma abrasadora do verão. Daí
resultou chamar-se
Aracati
o lugar de onde vinha a monção. Ainda hoje no Icó o nome é
Pág. 29, I. Aflar
—
Sobre este verbo que introduzi na língua portuguesa do latim afflo, já
escrevi o que entendi em nota de uma segunda edição da
Diva, que brevemente há de vir à luz.
II. Anhangá
— Davam os indígenas este nome ao espírito do mal; compõe-se de anho
— só,
e
angá — alma. Espírito só, privado de corpo, fantasma.
Pág. 34, I. Camucim
—
Vaso onde encerravam os indígenas os corpos dos mortos e lhes
servia de túmulo; outros dizem
camotim,
e talvez com melhor ortografia, porque, se não me
engano, o nome é corrupção da frase
co — buraco, ambira — defunto, anhotim
— enterrar;
buraco para enterrar o defunto:
c´ am´ otim. O nome dava-se também a qualquer pote.
II. Guabiroba
— Deve ler-se Andiroba. Árvore que dá um azeite amargo.
93

III. Cabelos do sol
— Em tupi guaraciaba.
Assim, chamavam os indígenas aos europeus que
Pág. 38, I. Moquém
— Do verbo mocáem
— assar na labareda. Era a maneira por que os
II. Senhor do caminho —
Assim chamaram os indígenas ao guia, de py — caminho, e guara
— senhor.

Pág. 38, I. O dia vai ficar triste
— Os tupis chamavam a tarde caruca,
segundo o
dicionário. Segundo Lery,
che caruc acy
significa “estou triste”. Qual destes era o sentido
II. Jurupari
— Demônio; de juru— boca, e apara — torto, aleijado. O boca torta.
III. Ubaia
— Fruta conhecida da espécie eugênia. Significa fruta saudável; de uba — fruta,
e aia — saudável.
Pág. 41, I. Jandaia
— Este nome que anda escrito por diversas maneiras, nhendaia,
nhandaia, e em todas alterado, é apenas um adjetivo qualificativo do substantivo ará. Deriva-senheng — falar, antan — duro, forte, áspero, e ara — desinência verbal quenh´ ant´ ara; substituído o t por d e o r por i, tornou-se nhandaia, donde
ele das palavras

exprime o agente:

jandaia, que se traduzirá por periquito grasnador. Do canto desta ave, como se viu, é que vem o
nome de Ceará, segundo a etimologia que lhe dá a tradição.

II. Inhuma
—
Ave noturna palamedea. A espécie de que se fala aqui é a Palamedea
chavaria, que canta regularmente à meia-noite. A ortografia melhor creio ser
anhuma, talvez de
anho — só, e anum — ave agoureira conhecida. Significaria então anum solitário, assim
chamado pela tal ou qual semelhança do grito desagradável.

Pág. 43. Inúbia
—
Trombeta de guerra. Os indígenas, segundo Lery, as tinham tão grandes
Pág. 45. Guará
— Cão selvagem, lobo brasileiro. Provém esta palavra do verbo u
— comer,
do qual se forma com o relativo
g e a desinência ara o verbal g-u-ára
— comedor. A sílaba final
longa é a partícula propositiva
ã que serve para dar força à palavra.
G-u-ára-á
— realmente comedor, voraz.
Pág. 46, I. Jibóia
— Cobra conhecida; de gi — machado, e boia
— cobra. O nome foi tirado
II. Sucuri
— A serpente gigante que habita nos grandes rios e engole um boi. De suu
—
animal, e
cury ou curu
— roncador. Animal roncador, porque de feito o ronco da sucuri é
Pág. 46, I. Se é que tens sangue e não mel
—
Alusão que faz o velho Andira ao nome de
II. Ouve seu trovão
—
Todo esse episódio do rugido da terra é uma astúcia, como usavam
III. Abati n’água
—
Abati — arroz; Iracema serve-se da imagem do arroz que só viça no
94

Pág. 57, I. Ubiratã
— Pau-ferro; de ubira— pau, e antan— duro.
II. Maracajá
— Gato selvagem.
III. Caititus
— Porco-do-mato, espécie de javali brasileiro. De caeté
— mato grande e
virgem, e
suu — caça, mudado o s em t
na composição pela eufonia da língua. Caça do mato
IV. Jaguar
—
Vimos que guará significa voraz. Jaguar tem inquestionavelmente a mesma
etimologia; é o verbal
guara e o pronome já —
nós. Jaguar era, pois, para os indígenas, todos os
animais que os devoravam.
Jaguareté — o grande devorador.
V. Anajê
— Gavião.
Pág. 59. Acauã
— Ave inimiga das cobras; de caa — pau, e uan, do verbo u
— que come
Pág. 61. Saí
— Lindo pássaro, azul.
Pág. 62, I. À cintura da virgem
— Os indígenas chamavam a amante possuída aguaçaba; de
aba — homem, cua — cintura, çaba — coisa própria; a mulher que o homem cinge, ou traz à
cintura. Fica, pois, claro o pensamento de Iracema.

II. Carioba
— Camisa de algodão; de cary — branco, e oba — roupa. Tinha também a
araçóia, de arara e oba — vestido de penas de arara.
Pág. 65, I. Jaci
— A Lua. De já — pronome nós, e cy
— mãe. A Lua exprimia o mês para os
II. Fogos da alegria
— Chamavam os selvagens tory — os fachos ou fogos; e toryba
— a
III. Bucã
— Significa uma espécie de grelha que os selvagens faziam para assar a caça, daí
vem o verbo francês
boucaner. A palavra é da língua tupi.
IV. Acoty
— Cutia.
Pág. 70. Abaeté
— Varão abalizado; de aba — homem, e eté — forte, egrégio.
Pág. 73, I. Jacaúna
— Jacarandá-preto, de jaca — abreviação de jacarandá, e una —
preto. Este Jacaúna é o célebre chefe, amigo de Martim Soares Moreno.

II. Cuandu
— Porco-espinho.
Pág. 74. Seu colar de guerra
—
O colar que os selvagens faziam dos dentes dos inimigos
Pág. 75, I. Japi —
Significa nosso pé; do pronome já — nós, py — pé.
II. Ibiapina
— De iby— terra, e apino — tosquiar.
III. Jatobá
—
Grande árvore real. O lugar da cena é o sítio da hoje Vila Viçosa, onde diz a
Pág. 78, I. Meruoca
— De meru — mosca, e oca
— casa. Serra junto de Sobral, fértil em
II. Uruburetama
— Pátria ou ninho de urubus: serra bastante alta.
III. Mundaú
— Rio muito tortuoso que nasce na serra de Uruburetama. Mundé — cilada, e
hu— rio.
IV. Potengi
— Rio que rega a cidade de Natal, donde era filho Soares Moreno.
Pág. 81, I. As saborosas traíras
— É o rio Trairi, trinta léguas ao norte da capital. De traíra
— peixe, e
y— rio. Hoje é povoação e distrito de paz.
II. Soipé
— País da caça. De sôo — caça, e ipé
— lugar onde. Diz-se hoje Suipé, rio e
III. Pocoty
—
Rio das pacobas. Nasce na serra de Baturité e lança-se no oceano duas léguas
95

IV. Iguabe
— Enseada distante duas léguas de Aquirás. De ig — água, cua — cintura, e ipé
— onde.

Pág. 82, I. Mocoribe
— Morro de areia na enseada do mesmo nome, a uma légua do
Fortaleza; diz-se hoje Mucuripe. Vem de
corib — alegrar, e mo
, partícula ou abreviatura do
verbo
monhang —
fazer, que se junta aos verbos neutros e mesmo ativos para dar-lhes
significação passiva; ex.:
caneon— afligir-se, mocaneon — fazer alguém aflito.
II. Rio que forma um braço de mar
— É o Parnaíba, rio do Piauí. Vem de pará — mar,
nhanhe — correr, e hyba — braço; braço corrente do mar. Geralmente se diz que pará significaparaná mar; é inteiramente o contrário.
rio e

III. Brancos tapuias
— Em tupi — tapuitinga.
Nome que os pitiguaras davam aos franceses
para diferençá-los dos tupinambás.
Tapuia significa bárbaro, inimigo. De taba — aldeia, e puir
— fugir: os fugidos da aldeia.

IV. Mairi
— Cidade. Talvez provenha o nome de mair —
estrangeiro, e fosse aplicado aos
Pág. 85, I. Batuireté
— Narceja ilustre; de batuira e eté.
Apelido que tomara o chefe
II. Suas estrelas eram muitas
—
Contavam os indígenas os anos pelo nascimento das
III. Jatobá
— Árvore frondosa, talvez de jetahy, oba — folha, e a,
aumentativo; jetaí de
IV. Quixeramobim
—
Segundo o Dr. Martius traduz-se por essa exclamação de saudade.
Compõe-se de
Qui— ah!, xere — meus, amôbinhê — outros tempos.
V. Caminho das garças
— Em tupi Acarape,
povoação na freguesia de Baturité a nove
Pág. 86. Maranguab
—
A serra de Maranguape, distante cinco léguas da capital, e notável
pela sua fertilidade e formosura. O nome indígena compõe-se de
maran — guerrear, e coaub
—
sabedor;
maran talvez seja abreviação de maramonhang
— fazer guerra, se não é, como eu
penso, o substantivo simples
guerra,
de que se fez o verbo composto. O Dr. Martius traz
etimologia diversa.
Mara — árvore, angai — de nenhuma maneira, guabe
— comer. Esta
Pág. 86, I. Pirapora
—
Rio de Maranguape, notável pela frescura de suas águas e
excelência dos banhos chamados de Pirapora, no lugar das cachoeiras. Provém o nome de
Pira
— peixe,
pore — salto; salto do peixe.
II. O gavião branco
—
Batuireté chama assim o guerreiro branco, ao passo que trata o neto
Pág. 90, I. Porangaba
—
Significa beleza. É uma lagoa distante da cidade uma légua em
II. Jereraú
— Rio das marrecas; de jerere ou irerê — marreca, e hu
— água. Este lugar
ainda hoje é notável pela excelência de frutas, com especialidade as belas laranjas conhecidas
por
laranjas de Jereraú.
III. Sapiranga
—
Lagoa no sítio Alagadiço Novo, a cerca de duas léguas da capital. O nome
indígena significa olhos vermelhos, de
ceça — olhos, e piranga
— vermelhos. Esse mesmo nome
96

Pág. 90, I. Muritiapuá
— De muriti
— nome da palmeira mais vulgarmente conhecida por
buriti, e
apuã — ilha. Lugarejo no mesmo sítio referido.
II. Aratanha
— De arara — ave, e tanha
— bico. Serra mui fértil e cultivada, em
III. Guaiúba
— De goaia — vale, y — água, jur — vir, be
— por onde: por onde vêm as
IV. Pacatuba
— De paca e tuba,
leito ou couto das pacas. Recente, mas importante
Pág. 91. Âmbar
—
As praias do Ceará eram nesse tempo abundantes de âmbar que o mar
arrojava. Chamavam-lhe os indígenas
pira repoti— esterco de peixe.
Pág. 94. Coatiá
— pintar. —
A História menciona esse fato de Martim Soares Moreno se ter
Coatiabo
— A desinência abo
significa o objeto que sofreu a ação do verbo, e talvez
provenha de
aba — gente, criatura.
Pág. 95, I. Colibri
— Desse letargo do colibri no inverno fala Simão de Vasconcelos.
II. Carbeto
—
Espécie de serão que faziam os índios à noite em uma cabana maior, onde
todos se reuniam para conversar. Leia-se Ives d´Evreux,
Viagem ao Norte do Brasil.
Pág. 101, I. Mocejana
— Lagoa e povoação a duas léguas da capital. O verbo cejar
significa — abandonar; a desinência
ana indica a pessoa que exercita a ação do verbo. Cejana
significa o que abandona. Junta à partícula
mo do verbo monhang
— fazer, vem a palavra a
II. Monguba
—
Árvore que dá um fruto cheio de cotão, semelhante ao da sumaúma, com a
Pág. 104. Imbu
—
Fruta da serra do Araripe que não tem no litoral. É saborosa e
Pág. 104. Jacarecanga
—
Morro de areia na praia do Ceará afamado pela fonte de água
fresca puríssima. Vem o nome de
jacaré — crocodilo, e acanga — cabeça.
Pág. 106, I. Japim
—
Pássaro cor-de-ouro com encontros pretos e conhecido vulgarmente
II. Folha escura
— A murta, que os indígenas chamavam capixuna, de caa
— rama,
folhagem, e
pixuna
— escuro. Daí vem a figura de que usa Iracema para exprimir a tristeza que
Pág. 107/109, I. Tupinambás
—
Nação formidável, ramo primitivo da grande raça tupi.
Depois de uma resistência heróica, não podendo expulsar os portugueses da Bahia, emigraram
até o Maranhão, onde fizeram aliança com os franceses, que já então infestavam aquelas
paragens. O nome que eles se davam significa — gente parente dos tupis, de
tupi — anama —
aba.

II. Baía dos papagaios
— É a baía da Jericoacoara, de jeru — papagaio, cua — várzea,
coara — buraco ou seio: enseada da várzea dos papagaios. É um dos bons portos do Ceará.
III. Maracatim
— Grande barco que levava na proa — tim — um maracá.
Aos barcos
menores ou canoas chamavam
igara, de ig — água, e jara — senhor; senhora d´água.
Pág. 108. Caiçara
— De cai — pau queimado e a desinência çara,
cousa que tem, ou se faz;
Pág. 111. Moacir
— Filho do sofrimento: de moaci — dor, e ira
— desinência que significa
97

Faixa
—
É o que chamam vulgarmente tipóia; rejeitou-se o termo próprio do texto, por
Pág. 112. Chupou tua alma
— Criança em tupi é pitanga, de piter — chupar, e anga
—
alma; chupa alma. Seria porque as crianças atraem e deleitam aos que as vêem? Ou porque
absorvem uma porção d
’alma dos pais? Caubi fala nesse último sentido.
Pág. 116. Carimã
— Uma conhecida preparação de mandioca. Caric — correr, mani
—
Pág. 117, I. Tauape
— Lugar do barro amarelo: de tauá e ipé.
Fica no caminho de
II. Piau
— Peixe que deu o nome ao rio Piauí.
III. Velha taba
— Tradução de Tapui-tapera.
Assim chamava-se um dos estabelecimentos
IV. Itaóca
— Casa de pedra, fortaleza.
Pág. 118, I. Manacá
—
Linda flor. Veja-se o que diz a respeito o Sr. Gonçalves Dias em seu
II. Cupim
— Inseto conhecido. O nome compõe-se de co — buraco, e pim — ferrão.
Pág. 122. Albuquerque
—
Jerônimo de Albuquerque, chefe da expedição ao Maranhão em
98
99
CARTA

Ao Dr. Jaguaribe.
Eis-me de novo, conforme o prometido.
Já leu o livro e as notas que o acompanham; conversemos pois.
Conversemos sem cerimônia, em toda familiaridade, como se cada um estivesse recostado em
sua rede, ao vaivém do lânguido balanço, que convida à doce prática.
Se algum leitor curioso se puser à escuta, deixá-lo. Não havemos por isso de mudar o tom
rasteiro da intimidade pela frase garrida das salas.
Sem mais.
Há de recordar-se você de uma noite que entrando em minha casa, quatro anos a esta parte,
achou-me rabiscando um livro. Era isso em uma quadra importante, pois que uma nova legislatura,
filha de nova lei, fazia sua primeira sessão; e o país tinha os olhos nela, de quem
esperava iniciativa generosa para melhor situação.
Já estava eu meio descrido das cousas, e mais dos homens; e por isso buscava na literatura
diversão à tristeza que me infundia o estado da pátria entorpecida pela indiferença. Cuidava eu
porém que você, político de antiga e melhor têmpera, pouco se preocupava com as cousas
literárias, não por menos preço, sim por vocação.
A conversa que tivemos então revelou meu engano; achei um cultor e amigo da literatura
amena; e juntos lemos alguns trechos da obra, que tinha, e ainda não as perdeu, pretensões a um
poema.
É, como viu e como então lhe esbocei a largos traços, uma heróide que tem por assunto as
tradições dos indígenas brasileiros e seus costumes. Nunca me lembrara eu de dedicar-me a esse
gênero de literatura, de que me abstive sempre, passados que foram os primeiros e fugaces
arroubos da juventude. Suporta-se uma prosa medíocre, e estima-se pelo quilate da idéia; mas o
verso medíocre é a pior triaga que se possa impingir ao pio leitor.
Cometi a imprudência quando escrevia algumas cartas sobre a
Confederação dos tamoios
dizer: “As tradições dos indígenas dão matéria para um grande poema que talvez um dia alguém
apresente sem ruído nem aparato, como modesto fruto de suas vigílias.”
Tanto bastou para que supusessem que o escritor se referia a si, e tinha já o poema em mão;
várias pessoas perguntaram-me por ele. Meteu-me isto em brios literários; sem calcular das
forças mínimas para empresa tão grande, que assoberbou dois ilustres poetas, tracei o plano da
obra, e a comecei com tal vigor que levei quase de um fôlego ao quarto canto.
Esse fôlego susteve-se cerca de cinco meses, mas amorteceu; e vou lhe confessar o motivo.

100

Desde cedo, quando começaram os primeiros pruridos literários, uma espécie de instinto me
impelia a imaginação para a raça selvagem e indígena. Digo instinto, porque não tinha eu então
estudos bastantes para apreciar devidamente a nacionalidade de uma literatura; era simples
prazer que me deleitava na leitura das crônicas e memórias antigas.
Mais tarde, discernindo melhor as cousas, lia as produções que se publicavam sobre o tema
indígena; não realizavam elas a poesia nacional, tal como me aparecia no estudo da vida
selvagem dos autóctones brasileiros. Muitas pecavam pelo abuso dos termos indígenas
acumulados uns sobre outros, o que não só quebrava a harmonia da língua portuguesa, como
perturbava a inteligência do texto. Outras eram primorosas no estilo e ricas de belas imagens;
porém certa rudez ingênua de pensamento e expressão, que devia ser a linguagem dos indígenas,
não se encontrava ali.
Gonçalves Dias é o poeta nacional por excelência; ninguém lhe disputa na opulência da
imaginação, no fino lavor do verso, no conhecimento da natureza brasileira e dos costumes
selvagens. Em suas poesias americanas aproveitou muitas das mais lindas tradições dos
indígenas; e em seu poema não concluído dos
Timbiras,
propôs-se a descrever a epopéia
piguara. A beleza da expressão selvagem em sua tradução literal e etimológica me parece bemcoaub, porque essa
saliente. Não diziam sabedor do caminho, embora tivessem termo próprio,

101

frase não exprimia a energia de seu pensamento. O caminho no estado selvagem não existe; não
é cousa de saber. O caminho faz-se na ocasião da marcha através da floresta ou do campo, e em
certa direção; aquele que o tem e o dá, é realmente senhor do caminho.
Não é bonito? Não está aí uma jóia da poesia nacional?
Pois talvez haja quem prefira a expressão rei do caminho, embora os brasis não tivessem rei,
nem idéia de tal instituição. Outros se inclinaram à palavra guia, como mais simples e natural
em português, embora não corresponda ao pensamento do selvagem.
Ora, escrever um poema que devia alongar-se para correr o risco de não ser entendido, e
quando entendido não apreciado, era para desanimar o mais robusto talento, quanto mais a
minha mediocridade. Que fazer? Encher o livro de grifos que o tornariam mais confuso e de
notas que ninguém lê? Publicar a obra parcialmente para que os entendidos proferissem o
veredicto literário? Dar leitura dela a um círculo escolhido, que emitisse juízo ilustrado?
Todos estes meios tinham seu inconveniente, e todos foram repelidos: o primeiro afeava o
livro; o segundo o truncava em pedaços; o terceiro não lhe aproveitaria pela cerimoniosa
benevolência dos censores. O que pareceu melhor e mais acertado foi desviar o espírito dessa
obra e dar-lhe novos rumos.
Mas não se abandona assim um livro começado, por pior que ele seja; aí nessas páginas
cheias de rasuras e borrões dorme a larva do pensamento, que pode ser ninfa de asas douradas,
se a inspiração fecundar o grosseiro casulo. Nas diversas pausas de suas preocupações o
espírito volvia pois ao álbum, onde estão ainda incubados e estarão cerca de dois mil versos
heróicos.
Conforme a benevolência ou severidade de minha consciência, às vezes os acho bonitos e
dignos de verem a luz; outras me parecem vulgares, monótonos, e somenos a quanta prosa
charra tenho eu estendido sobre o papel. Se o amor de pai abranda afinal esse rigor, não
desvanece porém nunca o receio de “perder inutilmente meu tempo a fazer versos para
caboclos”.
Em um desses volveres do espírito à obra começada, lembrou-me da experiência
in anima
prosaica. O verso pela sua dignidade e nobreza não comporta certa flexibilidade de expressão
que, entretanto, não vai mal à prosa a mais elevada. A elasticidade da frase permitiria então que
se empregassem com mais clareza as imagens indígenas, de modo a não passarem
desapercebidas. Por outro lado conhecer-se-ia o efeito que havia de ter o verso pelo efeito que
tivesse a prosa.
O assunto para a experiência, de antemão estava achado. Quando em 1848 revi nossa terra
natal, tive a idéia de aproveitar suas lendas e tradições em alguma obra literária. Já em S.
Paulo tinha começado uma biografia do Camarão. A mocidade dele, a amizade heróica que o
ligava a Soares Moreno, a bravura e lealdade de Jacaúna, aliado dos portugueses, e suas
guerras contra o célebre Mel Redondo; aí estava o tema. Faltava-lhe o perfume que derrama
sobre as paixões do homem a beleza da mulher.
Sabe você agora o outro motivo que eu tinha de lhe endereçar o livro; precisava dizer todas
Iracema. E com quem melhor conversaria sobre
estas cousas, contar o como e por que escrevi

isso do que com uma testemunha de meu trabalho, a única, das poucas, que respira agora as
auras cearenses?
Este livro é pois um ensaio ou antes amostra. Verá realizadas nele minhas idéias a respeito
da literatura nacional; e achará aí poesia inteiramente brasileira, haurida na língua dos
selvagens. A etimologia dos nomes das diversas localidades e certos modos de dizer tirados da
composição das palavras são de cunho original.

102

Compreende você que não podia eu derramar em abundância essa riqueza no livrinho agora
publicado, porque elas ficariam desfloradas na obra de maior vulto, a qual só teria a novidade
da fábula. Entretanto há aí de sobra para dar matéria à crítica, e servir de base ao juízo dos
entendidos.
Se o público ledor gostar dessa forma literária, que me parece ter algum atrativo e novidade,
então se fará um esforço para levar ao cabo o começado poema, embora o verso pareça na
época atual ter perdido sua influência e prestígio. Se porém o livro for acoimado de cediço e
tedioso, ou se
Iracema
encontrar a usual indiferença, que vai acolhendo o bom e o mau com a
Agosto 1865.
J. DE ALENCAR
mesma complacência, quando não é o silêncio desdenhoso e ingrato; então o autor se
desenganará de mais esse gênero de literatura, como já se desenganou do teatro; e os versos
como as comédias passarão para a gaveta dos papéis velhos, relíquias autobiográficas.
Depois de concluído o livro e quando o reli já apurado na estampa, conheci que me tinham
escapado senões que poderia corrigir se não fosse a pressa com que o fiz editar: noto algum
excesso de comparações, certa semelhança entre algumas imagens, e talvez desalinho no estilo
dos últimos capítulos que desmerecem dos primeiros. Também me parece devia conservar aos
nomes das localidades sua atual versão, embora corrompida.
Se a obra tiver segunda edição será escoimada destes e de outros defeitos que lhe descubram
os entendidos.


brasileira.
Entretanto, os selvagens de seu poema falam uma linguagem clássica, o que lhe foi
censurado por outro poeta de grande estro, o Dr. Bernardo Guimarães; eles exprimem idéias
próprias do homem civilizado, e que não é verossímil tivessem no estado da natureza.
Sem dúvida que o poeta brasileiro tem de traduzir em sua língua as idéias, embora rudes e
grosseiras, dos índios; mas nessa tradução está a grande dificuldade; é preciso que a língua
civilizada se molde quanto possa à singeleza primitiva da língua bárbara; e não represente as
imagens e pensamentos indígenas senão por termos e frases que ao leitor pareçam naturais na
boca do selvagem.
O conhecimento da língua indígena é o melhor critério para a nacionalidade da literatura.
Ele nos dá não só o verdadeiro estilo, como as imagens poéticas do selvagem, os modos de seu
pensamento, as tendências de seu espírito, e até as menores particularidades de sua vida.
É nessa fonte que deve beber o poeta brasileiro; é dela que há de sair o verdadeiro poema
nacional, tal como eu o imagino.
Cometendo portanto o grande arrojo, aproveitei o ensejo de realizar as idéias que me
vagueavam no espírito, e não eram ainda plano fixo; a reflexão consolidou-as e robusteceu.
Na parte escrita da obra foram elas vazadas em grande cópia. Se a investigação laboriosa
das belezas nativas feita sobre imperfeitos e espúrios dicionários exauria o espírito; a satisfação
de cultivar essas flores agrestes da poesia brasileira, deleitava. Um dia porém fatigado da
constante e aturada meditação ou análise para descobrir a etimologia de algum vocábulo,
assaltou-me um receio.
Todo este ímprobo trabalho que às vezes custava uma só palavra, me seria levado à conta?
Saberiam que esse escrópulo d’ouro fino tinha sido desentranhado da profunda camada, onde
dorme uma raça extinta? Ou pensariam que fora achado na superfície e trazido ao vento da fácil
inspiração?
E sobre esse, logo outro receio.
A imagem ou pensamento com tanta fadiga esmerilhados seriam apreciados em seu justo
valor pela maioria dos leitores? Não os julgariam inferiores a qualquer das imagens em voga,
usadas na literatura moderna?
Ocorre-me um exemplo tirado deste livro. Guia, chamavam os indígenas, senhor do caminho,

1612.


dicionário.


dos tupinambás no Maranhão.


Maranguape.

mandioca: mandioca escorrida.


andar degradado no estilo chulo.

— saído de.

o que se faz de pau queimado. Era uma forte estacada de pau-a-pique.



ela produz no esposo.

pelo nome de sofrê.


semelhante ao cajá.

diferença de ser negro. Daí veio o nome de uma parte da serra de Maranguape, onde tem
estabelecimento rural o tenente-coronel João Franklin de Alencar.

significar o que fez abandonar ou que foi lugar e ocasião de abandonar.




coatiado quando vivia entre os selvagens do Ceará.


povoação, em um belo vale da serra da Aratanha.

águas do vale. Rio que nasce na serra da Aratanha e corta a povoação do mesmo nome a seis
léguas da capital.

continuação da de Maranguape.


dão usualmente no Norte a certa oftalmia.

sítio aprazível. Hoje a chamam Arronches; em suas margens está a decadente povoação do
mesmo nome.

por narceja; ele profetiza nesse paralelo a destruição de sua raça pela raça branca.


etimologia nem me parece própria ao objeto, que é uma serra, nem conforme com os preceitos
da língua.

léguas da capital.


grande copa. É o nome de um rio e de uma serra em Santa Quitéria.

plêiades no Oriente; e também costumavam guardar uma castanha de caju, de cada estação da
fruta, para marcar a idade.

pitiguara, e que na linguagem figurada valia tanto como valente nadador. É o nome de uma
serra fertilíssima e da comarca que ela ocupa.

povoados dos brancos em oposição às tabas dos índios.



ao norte de Aquirás.

povoação pertencente a freguesia e termo da Fortaleza, situada à margem dos alagados
chamados Jaguaruçu, na embocadura do rio.





mantimentos.

tradição ter nascido Camarão.



vencidos era um brasão e troféu de valentia.





alegria, a festa, a grande cópia de fachos.

selvagens; e seu nascimento era sempre por eles festejado.




pau.



virgem.



alagado, para exprimir sua alegria.

os pajés e os sacerdotes de toda a nação selvagem para se imporem à imaginação do povo. A
cabana estava assentada sobre um rochedo, onde havia uma galeria subterrânea que
comunicava com a várzea por estreita abertura; Araquém tivera o cuidado de tapar com grandes
pedras as duas aberturas, para ocultar a gruta dos guerreiros. Nessa ocasião a fenda inferior
estava aberta, e o pajé o sabia; abrindo a fenda superior, o ar encanou-se pelo antro espiral com
estridor medonho, e de que pode dar uma idéia o sussurro dos caramujos. — O fato é, pois,
natural; a aparência, sim, é maravilhosa.

Irapuã, o qual, como se disse, significa mel redondo.

medonho.

da maneira por que a serpente lança o bote, semelhante ao golpe do machado; pode traduzir-se
bem: cobra de arremesso.



que mediam muitos palmos no diâmetro de abertura.





figurado da palavra? Tiraram a imagem da tristeza, da sombra da tarde, ou imagem do
crepúsculo, do torvamento do espírito?

indígenas conservavam a caça para não apodrecer, quando a levavam em viagem. Nas cabanas
a tinham no fumeiro.

tinham os cabelos louros.




conservado à brisa da tarde, que sopra do mar.

desprezo ao velho guerreiro.

porque os selvagens acompanhavam o vozear com o bater das palmas e das armas.

desprezo davam os inimigos aos pitiguaras, que habitavam as praias e viviam em grande parte
da pesca. Este nome dão alguns escritores aos pitiguaras, porque o receberam de seus inimigos.

tem a casa, ou onde a casa está.





os selvagens durante a noite.


pelos cronistas do tempo que traduziram seu nome ao pé da letra. Mel Redondo, chefe dos
tabajaras da serra de Ibiapaba, foi encarniçado inimigo dos portugueses e amigo dos franceses.


amargo, de cheiro acre, do qual juntamente com as folhas e outros ingredientes preparavam os
selvagens uma bebida, que tinha o efeito do haxixe, de produzir sonhos tão vivos e intensos, que

escrevia nas areias úmidas, para melhor os polir.


significação que lhe dá.





entre as diversas tribos, ou mesmo entre dois guerreiros inimigos. Desde já advertimos que não
se estranhe a maneira por que o estrangeiro se exprime falando com os selvagens; ao seu
perfeito conhecimento dos usos e língua dos indígenas, e sobretudo a ter-se conformado com eles
ao ponto de deixar os trajos europeus e pintar-se, deveu Martim Soares Moreno a influência que
adquiriu entre os índios do Ceará.


fios de renda.


preço e estimação.


assim chamada pela bela cor vermelha.

sombra.

dominava o interior da província, especialmente a serra de Ibiapaba.

grandes coroas ou ilhas no meio dos tabuleiros e sertões, e é de preferência procurada para a
cultura. Daí se deriva o nome dessa comarca da província.





o cobrem de palha. Em geral é qualquer estiva elevada do solo e suspensa em forquilhas.

periquito. Essa é a etimologia verdadeira; não só conforme com tradição, mas com as regras da
língua.


Entretanto farei sempre uma observação.
Em primeiro lugar, a tradição oral é uma fonte importante da História, e às vezes a mais
pura e verdadeira. Ora, na província de Ceará, em Sobral, não só referiam-se entre gente do
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